sexta-feira, 31 de julho de 2009

"Ai que horror"

“Ai que horror”

Disse a senhora de olhos esbugalhados virada para mim, que envergava um belo pijama da praxe que permitia que lhe fosse administrado o tratamento dos “sacos pretos”. Tinha sonda de alimentação, mas o horror era eu, de 38 anos, com cancro do pulmão e ali á frente dela. Fiquei preocupada comigo: apeteceu-me bater-lhe, e isso é má atitude. Mas ela olhou para mim como se eu fosse um esqueleto ou assombração.


Quando chega alguém a uma enfermaria de cinco mulheres, há duas hipóteses: uma é arrancar a história e “cadastro” á recém-chegada através de um chorrilho de perguntas. A outra é esperar que a nova hóspede se instale, sossegue e deixe que lhe tratem a maleita.

Desta vez, eu estava a fazer tratamentos em internamentos de cinco dias e cinco noites. Não sou por natureza faladora, não tenho de contar a minha vida a ninguém, e mais do que isso, tenho idade suficiente para pensar antes de abrir a boca. Já tinha feito uma série de seis ciclos de três dias também em internamento, pelo que…desconfiava no que me ia meter.



Por vezes, podemos “meter a pata na poça” ao falarmos acerca de algo que diz mesmo, mas mesmo, respeito a quem está ao lado. Seja na sala de espera, seja na enfermaria, seja na fila do supermercado.

Passo a exemplificar, dentro do internamento já ouvi:




  1. “Quando é no pulmão é logo, duram pouco tempo.” (eu tenho nódulos no pulmão) Desta vez, a senhora que disse isto perguntou-me, a seguir onde é que eu tinha a coisa cujo nome ela não conseguia pronunciar. E eu disse: “O quê? O meu cancro? Olhe…foi no pulmão esquerdo, que tirei. Depois foi para o ombro direito, e agora está também no pulmão direito.” Ela demorou um pouco a assimilar tudo, mas quando voltou a falar para mim foi quando saí com alta do tratamento. Sei quais são as minhas probabilidades estatísticas, e são más, mas ainda me dou ao luxo de escolher quem me diz isso.

  2. “Depois quando fiz os sacos pretos senti-me muito mal e caiu-me o cabelo”. (os sacos pretos são colocados por cima dos sacos de soro que têm o tratamento citostático, seja ele qual for, para os proteger da luminosidade; a maioria das pessoas que faz quimio não vai lá levar soro fisiológico simples, né?) O cabelo não cai a toda a gente, nem isso é sinónimo de que o tratamento seja mais ou menos forte, mais ou menos eficaz, por amor da santa! Cá em casa essa dos sacos pretos já é piada. São usualmente utilizados para meter roupa usada, chinelos, para forrar os vomitórios, etc.
  3. “Ai, aqui a gente toca a campainha e nunca vêm, devem estar a dormir” (nem vale a pena comentar o ratio doente/enfermeiro em hospitais públicos) Ok, há um enfermeiro que se queixa tanto das maleitas dele, que quem tem cancro acaba por se sentir em muito melhor estado! Eu, pessoalmente continuo a achar que ele é chato e devia ser mais profissional. Depois também temos os teóricos, que ficam super-contentes quando encontram alguém que entende aquele jargão de enfermagem e medicina sem ficar roxo e dá para manter uma conversa de 20 minutos. Há também os super-eficientes, os que correm e fazem tudo bem, os que não correm, os que são muito atentos, os que deixam trabalho para o turno seguinte quando deixam o soro a pingar a 20 noite fora… Há de todo o tipo. Como em todas as profissões. E será que na casa dessas doentes a atenção é assim tão boa? Considerando o apetite com que engolem a comida da enfermaria…ou eu cozinho muito bem, ou anda muita coisa encoberta (já com o devido desconto para os enjoos que também já experimentei). E depois, considerando as lamentações á assistente social que as cortinas deixam ouvir… se calhar o defeito não é da campainha. Deve ser algum tipo de esperança de que outras situações se resolvam, talvez por efeito do “saco preto”.


Não voltei a encontrar a senhora dos olhos esbugalhados, penso eu. Nós engordamos e emagrecemos em espaços de duas semanas, temos cabelo e ficamos carecas, inchamos e desinchamos por causa dos corticóides, enfim, é fácil mudarmos de aspecto, de cara. Eu sou, desde que me conheço, bastante despistada com caras e nomes. Talvez se revele uma vantagem, afinal.

Neste caso receio voltar a encontrá-la e não a reconhecer. Prometi a mim mesma não fomentar conhecimentos nem amizades entre as minhas colegas doentes. Não acho boa ideia, porque a dada altura olhamos para o telemóvel e não sabemos se ainda podemos ligar, ou se vamos falar com algum familiar. Aconteceu-me uma vez, não quero que volte a acontecer.
Quanto a esta senhora…espero evidentemente que tenha melhorado, que já não precise da sonda de alimentação, que não tenha assustado mais ninguém e que tenha aprendido a refrear as reacções na cara dos outros.
É que se for preciso explicar-lhe direitinho, eu explico, com todas as letras e sem rodeios. E serei mal criada, se o fizer. A malta vai tentando resistir a bocas foleiras, mas algum dia está de chuva e não sei.









*****

6 comentários:

Brancamar disse...

Ri-me, ri-me, ri-me...e li-te primeiro em silêncio e porque a filha entrou aqui voltei atràs e li em voz alta, lemos as duas e foi diversão total, porque já lhe falei vezes sem conta de ti, porque te acho tão parecida com ela, o mesmo tipo de humor, a mesma reacção perante o mundo e no entanto tão doces...
Já me tinha rido imenso com cenas de enfermaria que se passaram com ela há dois anos e agora volto a rir-me contigo.

Sabes, já tive essa experiência em escala menor com um acidente de viação. Andei meses a curar um fémur partido e já a recuperar, cada vez que me viam na rua de canadianas queriam esmiuçar tudo ao pormanor e para eu não ficar tão animadita como tentava estar por nos safarmos os quatro, tinham logo uma história mais trágica para me contar...ao ponto de ter que deixar de levar a miúda comigo que na altura tinha 13 ou 14 anos e já estava a ficar agoniada cada vez que saíamos e tinha que ouvir longas histórias de terror.

Sinceramente não acho que se seja mal educado quando se responde no tom que nos apetece à falta de sensibilidade, embora eu não tenha muita coragem para o fazer, mas perante aquela do "horror" a resposta certa era: "um horror é o que a senhora é como ser humano".
Sabes, minha querida, as pessoas são como são e nem sempre aprendem ou melhoram só porque estão doentes. Já se me constou que há quem ache que só me dou por aqui com pessoas importantes, alguém tão ingrato que já se esqueceu que foi a partir dessas pessoas importantes que todos nos conhecemos, alguém que foi muito apoiado por a "pessoa importante" que também tu tens ali ao fundo, do lado direito e por muitos dos seus amigos. Não sei se também és importante, hihi, mas tenho a certeza absoluta que o és como ser humano e isso não escolhe classes, está no âmago de cada um.
Mais do que ter uma doença física, ter uma doença de carácter isso sim é morrer vivo...
Então parte para a vida e esquece as bocas foleiras, todos as recebemos uma hora ou outra àcerca seja do que fôr.
Um grande beijinho.

P.S. Já começaste aquelas crónicas do políticamente incorrecto, hihi.

jorge henriques disse...

olá logo volto para ler com atençâo estou de saida para a farra hehe
O esqueleto está afinado ?a ultima passagem pela oficina já deu resultados ?
beijocas e até logo

Carecaloira disse...

Beijoca grande.

Mrs. Sea disse...

Vim de férias hoje, mas fiz questão de passar por aqui para saber como estás! As coisas melhoraram e estamos em novo tratamento... A ver se é desta! Gostei de ver o teu humor! É isso mesmo... a ideia é essa... dar a volta por cima! Eu sinto que o vais conseguir! :)
Força, muita força!
Bjins

Brancamar disse...

Bom dia, com alegria,

Eu bem digo que não posso escrever de madrugada, emendo lá aquele errito acima, corticóides com o e não com u, que horror! Mas também não interessa nada no meio do sumo da conversa, hihi. É como a saia gira que é para ti um pedaço de tecido, pois é tudo relativo e por isso aqui estou, ainda em camisa de noite, que horror a esta hora, pois quem me mandou andar por aqui de noite.
Para a semana vou estar em sítio que não sei se terei acesso à net, mas sempre tenho aquela tecnologia nova para te mandar um bocadinho de mar e outras coisas mais, hihi.
Beijo muito grande.
Tia Branca

Brancamar disse...

Parece-me que este comentário entrou no sítio errado, hoje ao fim da manhã, era para o post acima, hoje não acerto uma, hihi.
Que loucura!
Vou passálo para lá.
Beijos