terça-feira, 9 de maio de 2006

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Nunca se sabe, mas pode dar jeito a alguém. Posted by Picasa

O Primeiro Sonho


Como gostava de escrever, pois assim ninguém lhe dizia que qualquer ideia era disparate ou estava desajustada das ideias dos outros, Ana começou a inventar pessoas em vez de personagens. E começou:


24 de Fevereiro de 2000
“Mas, lá dentro como é? Já me perguntei isto muitas vezes. Por vezes julgo estar a ver-me ao espelho. Mas pode ser imaginação minha, claro, só pode ser. O desejo de ver, nos outros, qualidades e valores que apreciamos não passa disso mesmo - um desejo, uma mentira ou irrealidade, conforme a moda filosófica do momento. Ele fala de si, mas só daquilo que se vê, não falou nunca do que sentiu ou como sentiu, ou mesmo se sentiu. Afinal é o que eu faço. Logo, não tenho o direito de afastar alguém assim, pois estaria mais uma vez a afastar-me, a afastar o ser que habita dentro de mim. O meu ser interino foi já culpabilizado, humilhado, estigmatizado por quem eu julgava amar. Que palavra tão gasta e adulterada esta!
A sociedade conseguiu levar à extinção o melhor de tudo isto: o Amor. Ninguém sabe o que é. Os poetas tentaram defini-lo, a esse conceito inventado pela civilização. Ah. Também não tenho encontrado muitos vestígios desta... (a tal civilização).
Não comunicamos, não exprimimos ideias nem sentimentos (copiamo-los de um imenso catálogo de opções disponíveis e vendáveis na terriola X); o pouco que nos separa daquilo que conhecemos do Homem pré-histórico é um punhado de maquinetas, a pilhas, a electricidade, a ar, a sol, a... nada.
Vivia-se em cavernas, hoje abrigamo-nos debaixo do edredão fofo e capa bonita a condizer com os cortinados; caçava-se, hoje coleccionamos latas e embalagens com coisas comestíveis; olhava-se o céu, hoje reduzimos o céu à “tele-miséria” de ecrã plano, “stereo surround”, mas, do mal, o menos,... a cores! Procriava-se, hoje inventam-se desculpas para não nos conhecermos sequer, quanto mais entregar o corpo à transpiração da paixão, dessa ligação etérea de almas que há quem diga existir num orgasmo de quem se ama. É ela que não é virgem, é ele que bebe e não tira as peúgas, é ela que é boa rapariga com pais em casa que exigem respeito (ou normalidade?), é ele que diz não ter telefonado por causa da bateria do telemóvel, ou mudou de ideias quanto ao casamento, mascarando a falta de tomates para o compromisso com a desculpa esfarrapada do exemplo de mau casamento da irmã.
Se ela é filha única... não tem salvação nesta sociedade portuguesa com ambições de europeia. Se vive com os pais, deve-lhes satisfações, logo não pode jantar fora de casa quando lhe apetece, ou quando apetece a sua excelência o “pseudo-namorado”. (Pois, pois, hoje ninguém namora, tudo vai andando! De preferência no anonimato que causa as seguintes duas sensações:
a) Ele acha que não podia ser melhor, está livre na mesma, não deve respeito a todas as pessoas que conhecem a suposta namorada;
b) Ela acha-se interessante e misteriosa na primeira semana, depois começa a ver as suas próprias amigas a galarem o suposto namorado, causando-lhe uma certa dor e peso na fronte, e finalmente sente-se como um penico velho de esmalte a que só se recorre quando a autoclismo avaria ou o único WC está ocupado).
Até pode ser sempre ela a telefonar pois parece que há mais recursos económicos. “Até pode comprar um vibrador meus caros senhores, ou vocês acham que são indispensáveis?”, era mau se as mulheres desatassem a dizer isto aos homens, não era?
Se estudou, ou simplesmente pensa, é potencialmente perigosa e traiçoeira do ponto de vista masculino. E nem sequer é preciso que seja inteligente para ser vista como uma ameaça! Aqui devo pedir desculpa aos Homens que até hoje não conheci, mas estava a referir-me aos garotos crescidos que me passaram pela frente, ou então ao “ego” que eles me deixaram conhecer.
Se ela tem iniciativa (sem falar de iniciativa sexual) é capaz de trair o homem, pois parece estar sempre assustadoramente dois passos à frente.
Homens e Mulheres não podem ser iguais, só podem aspirar a ser complementares. Convém que não esqueçam o respeito pela individualidade, e aquela margem de cedências necessária a qualquer relação a dois, seja no Amor, seja no Trabalho, seja na feira!
Feira... de vaidades, de falsismos, de vernizes estaladiços, de recheios facilmente adulteráveis quando expostos a condições exteriores adversas.
Se a menina é bonita, já ganhou. Se veste bem, óptimo, vai dar um lindo enfeite. Se se esgana a trabalhar já é mau, deixa de estar disponível para sua excelência utilizar. As pessoas não se utilizam. Tal como as flores aprisionadas em bonitos vasos, precisam da água e carinho, de ajuda para eliminar as ervas daninhas, que lhe refresquem a terra e lhe dêem ar e sol. Não ao mofo. Não à ausência.
Eu não nasci para viver sozinha. Mas às vezes os outros incomodam-me. Não todos, só aqueles que não me deixam ser eu. Depende dos dias.”

01 de Março de 2000

Não me dá troco. Também não tenho nem jeito nem artifícios para o provocar. Há coisas fáceis de fazer, isso há, mas considero-as reles.
Será que sofre do mesmo mal que eu? Deve ter o “Síndroma do sabonete molhado”, é uma daquelas pessoas que nos escapa para conversar, por exemplo. Viro-me dois segundos para um lado, quando volto... puf! Já fugiu. Dá-me vontade pela primeira vez em muitos anos de fazer daquelas perseguições do tipo “Olá, então por aqui?”, depois de passar duas horas à espera em local específico, crítico e mais ou menos certeiro e sei lá que mais. Mini-saia não uso, não me favorece, as meias estão caras e fico desconfortável. Agora esperar que quem por acidente aterrou no mesmo local que eu, sinta uma irreprimível e vitalícia paixão por mim, bem... acredito que antes disso veja uma vaca a voar e fazer quatro “loopings” seguidos!
Os homens olham em primeiro lugar para as pernas, depois para o traseiro e depois para as mamas. A seguir vem a cara, recordação que facilmente se esfuma. Coração, só vêem o da mãe deles. Ora vamos cá pensar. O que se vê desde as pernas até ao cabelo? Roupa!!! Não tenho jeito para a escolher, prefiro gastar dinheiro em livros e aproveitar o tempo da maquilhagem para dormir mais, no Inverno, e para ouvir os passarinhos a cantar no canavial, no Verão.
Eu sou mesmo estúpida. Acho que fui educada assim, ou talvez não. Todas as pessoas bonitas que conheci na infância e adolescência eram bonitas porque eram endinheiradas. E grande parte delas bastante arrogantes e xenófobas para o meu gosto. Por isso, o meu subconsciente continua a associar involuntariamente (na maioria das ocasiões) o bom aspecto e roupa de bom corte à tacanhez escondida por trinta camadas de verniz. Assim, vejo uma montra e desisto, a não ser que se trate de uma livraria, claro.
De qualquer modo, continuo preocupada comigo mesma. Acham normal que o meu melhor amigo seja o meu carro?”


04 de Dezembro de 2000

“Como o dia foi estúpido! Como, aliás, vem sendo regra nos anos mais recentes da minha curta vidita, decidi pensar em coisas boas: tu. Nunca vais ler isto. Provavelmente não vou ser suficientemente esperta para chamar a tua atenção, ou então vais ser suficientemente esperto para não me dares atenção! Só digo isto porque ninguém gosta de derrotistas, como eu sou, embora não pareça; mas como o principal são as acções ¾ para que os outros nos avaliem e entendam; e as minhas acções são poucas... lá vou eu apanhar outro balde de água fria.
Afinal, tu és mesmo quem eu penso? Acho que sim, ou pelo menos andas lá perto. Que olhinhos queridos e despedida carinhosa na quinta-feira. Era da chuva, da gafe ou mesmo por mim? O pior é que já muita gente julga que há efectivamente algo... e não há! A minha pena vai toda para o facto de “não haver”, não para o facto de “muita gente” pensar. Gostava de conseguir exprimir o que sinto, mas é difícil quando se sente mesmo. Já dizia o outro: “é fingimento”. Quem só escreve fá-lo melhor do que quem sente e escreve. Esses, nunca ninguém os entende. O que eu devia fazer era agarrar-te e dizer-te na cara o que penso. Ocasiões? Não há. Arranjá-las! Como? Não sei. Nem sei sequer se seria capaz. Se bem que conhecendo-me como me conheço, se me dá um repente... aqui vai disto, e depois, para desligar é uma chatice. Ainda algum dia fico famosa e alguém fica muito rico à minha custa. Vê só o sucesso do Livro do Desassossego! No fundo, ninguém o entende, todos conjecturam, estuda-se, mas... que raio queria ele dizer? Um dia destes rapto-te. Quero saber como és fora daqui, fora da farda, quais são as tuas piadas. Acho, no entanto, que para ti sou boa colega e “um amigalhaço”. Ora porra, não era bem isso. E lá voltamos ao meu velho problema: a dificuldade que eu tenho de aproveitar o pouco que me resta da frescura e piada dos vinte anos (já lá vão dez! deve ser por isso). Ainda me lembro de vestir uma saia e collants pretos e eles ficarem a olhar. Agora é mais por causa das meias opacas mal combinadas com a saia e as botas rasas. Coisas da vida. Canso-me a trabalhar para ter uma vidita tal-ou-quê e depois descubro que não tenho disponibilidade nem para o tal nem para o quê?! Pode ser que aos oitenta anos eu escreva um tratado monumental sobre a “arte de sobreviver solteira em Portugal” ou “a melhor maneira de evitar o sucesso”. Ena pá, arranjei um título porreiro. Só falta tudo o resto.
Só te queria a ti, mesmo que adormecesses no sofá, com o jornal em cima dos joelhos, mesmo que ficasse até às tantas da matina à espera que acabasses o trabalho. Não consigo deixar de pensar em ti. Que estupidez! Ou não? Será isto saudável? Sabes que há anos que ninguém me conseguia distrair como tu o fazes: eu perco papéis, eu esqueço-me dos compromissos, fico horas apática, de boca aberta como se tivesse tido uma paragem cerebral a imaginar como seria se... partilhasses o teu IRS comigo. Atenção, estou mesmo a falar de impostos. Isto de ser solteira não é rentável neste país. Pagamos para todos os desgraçados de espírito (“piolhosos”), como eu lhes chamo) e nem sequer temos a cristã satisfação de estar a ajudar quem precisa e pensa. É triste.”


06 de Dezembro de 2000

“Bem, triste sou eu. Um rico e belo exemplo de apatia quase todos os dias. Será que tu até gostas um pouquinho de mim? Ou toleras-me? Ou és tão atado como eu? Acho que vou atacar-te num destes intervalos. Como? Não faço a mínima ideia. Mas como costumo safar-me de improviso e Deus é grande... olha, logo se vê. De qualquer modo seria tipo “guarda-nocturno e mulher-a-dias”.

Pois é, caro leitor ou leitora, e ela não passava disto. Esta nossa amiga, apesar de não a conhecermos de lado nenhum, chama-se Ana, tem 29 anos (falta menos de um mês para fazer trinta), um veículo automóvel em vez de um carro, vive em casa emprestada e está ligeiramente desencantada com o emprego (ou pseudo-emprego) que tem.
Beatriz tem tido a imensa habilidade de estar sempre a leste de tudo o que lhe daria jeito agarrar com as duas mãos: um namorado do liceu cujo pai tinha uma empresa; o da faculdade que acabou por ser mestre e professor assistente numa universidade; um maluco que fugiu e foi a sorte dela; e agora... encalhou. Deixou de acreditar.
Todos os santos dias são iguais. Acorda, olha-se no espelho e fica com mais um trauma para o resto da vida:
¾ Os meus dentes são tortos, caramba... E olha, outra borbulha, e no meio da testa, como se até fosse possível eu ter um par de cornos! Bem, vamos lá ver se consigo disfarçar esta desgraça. Qualquer dia morro de asfixia debaixo destes cremes todos. Detesto isto. Aqueles anúncios são estúpidos, aparece sempre uma mulher perfeita a anunciar cremes e champôs milagrosos. Que belo efeito, não é? Pois, não precisam de arranjo!

E continuou a falar sozinha enquanto se vestia, naquela manhã cinzenta de Inverno, preparando-se para ir para o seu emprego. Engoliu a muito custo uma torrada e uma chávena de café. Gritou um “até logo” aos pais (com quem vive) que andavam algures pelo quarto, ouviu a resposta e saiu. Contornou o prédio, carregada com a pasta, mais um saco com livros e o chapéu de chuva, num equilíbrio periclitante e escorregadio até alcançar o portão da garagem. Abriu-o e no momento em que pensava recuperar a circulação na mão esquerda, descobriu que ia gangrenar, pois não encontrou as chaves do carro no momento oportuno, para o destrancar e atirar com aquele peso lá para dentro. Pois, é que essa história de portões electrónicos ou eléctricos, sei lá, e fechos com comando, não são para “profes”. Ah, pois não. Depois de dizer quatro palavrões, sentiu-se bastante mais aliviada, até porque, ao mesmo tempo, deixou cair tudo no chão. Raios! Eu tinha uma disquete dentro da pasta e a caixa dos óculos no saco! Deixa ver... acho que está tudo inteiro.”

E lá foi ela conduzindo alegremente a ouvir aquela estação de rádio em que pessoas brincalhonas tentavam alegrar as manhãs de milhares de encalhadas e encalhados como Beatriz, saltitando de banda sonora em banda sonora, de alcatrão em alcatrão... “sim, o problema não são os buracos nas estradas, são aqueles pedaços de alcatrão, quais verdadeiros himalaias, que insistem em dar valentes cacetadas nos pneus. E, já agora, porque será que há sempre gente que insiste em ter uma alergia tremenda aos passeios e caminha pela faixa de rodagem? Será porque também há gente que ainda não percebeu que deve conduzir pela estrada fora? Ai, não vai a conduzir. Olha, está parado em cima do passeio. Ah, camelo! Não se abre a porta assim! E são as mulheres que não sabem conduzir? Seja, mas sabem parar!
Que bom, o meu carrito acabou de apanhar com uma chapada de água do viaduto superior. Que lindo pára-brisas que eu tenho. Que alga será esta aqui à minha frente? Por sorte, não ia de janela aberta. Isto de vidros eléctricos até é giro, é cá um abre e fecha! Mas estou a perder o músculo do lado esquerdo. Eu fazia imenso exercício a abrir e fechar a janela do meu lado, e alongamentos a abrir a do lado direito. Paciência,” pensou encolhendo os ombros, “não se pode ter tudo.”

Quem passava podia vê-la a gesticular e a falar sozinha ao volante, só pessoas com grande capacidade de não preconceituar achariam que ela tinha um telemóvel com alta voz! Perto de noventa e oito por cento dos outros condutores achariam simplesmente que ela era louca.

“Antes fosse, se eu fosse mesmo louca acabava por ser muitíssimo bem tratada, teria desculpa para praticamente tudo. Mas tenho de fazer este “teatrinho da vida”, trabalho que não é pago, tenho de me comportar decentemente todo o dia, com os putos todos a pensar que ser “profe” é bom e dá dinheiro. Nem consigo pensar em prendas de Natal. Isso recorda-me que vou passar mais uma quadra hipocritamente bondosa em sofrimento... de ainda não ter feito nada da minha vida. Oh, que grande merda! Mas porque é que há sempre um esperto que faz disparar o vermelho do semáforo? Era só ler “Velocidade Limitada – 50”, bem, pensando melhor, até são nove sílabas complicadas e um número relacionado com dezenas. Pois é, é muito complicado de entender... em especial se passarmos a cem à hora, ou se lê mais depressa ou... trava-se na curva como ele fez! Enfim, safou-se. Eu não devo ser deste planeta.”

E chegou à escola. Estacionou, saiu, abriu a mala e debateu-se novamente com o facto de ter o hábito de levar a casa com ela para todo o lado. Nesta altura, já tinha o guarda-chuva de reserva enfiado no dicionário e um marcador a sair do capuz do casaco de fato de treino que habitava na sua bagageira dois dias por semana. Lá conseguiu organizar-se, fechou a porta e o gato de peluche com cara de poucos amigos ficou a balançar e a olhar fixamente para ela com ar esgazeado.
- Que foi? Tu também?
- Olá, bom dia -uma voz acordou-a e lembrou-lhe que começava agora o teatro. Era uma colega mais velha, perfeita melga que se metia em todas as conversas, quer elas fossem no início, meio ou fim.
-Então como vai? -Disse Ana, arrependendo-se imediatamente de ter formulado uma questão. Estava sujeita a ouvir um relato interminável da sua bendita colega. Mas não, esperou, esperou e... Nada.
Melhor, pensou Ana.
Caminhou com cara alegre até à sala de professores, tentando não dar ares de desabar a qualquer momento. Entrou.
- Bom dia.
- Bom dia.
Largou as suas coisas e foi até à reprografia. Óptimo, a máquina fotocopiadora avariou novamente. Melhor ainda, ainda não depositaram os ordenados. Nada melhor para começar o dia. Se houvesse Prémio Nobel do Azar, Ana ganhá-lo-ia.
Eis então que ela olha para a porta, enquanto se dirigia para a sala de professores e fica estática. A sua pulsação aumenta, tem calor, tem frio, tem comichão na planta dos pés, sente picadas nos joelhos e sente as rótulas aos saltos. Que horror, que sensações, tantas, todas juntas, assustam-na estas coisas que não têm lógica para pessoas lógicas. Mas porquê? Que raio.
“Estou estupidificada...”
- Olá, bom dia menina.
-Bom dia -respondeu Ana com a voz clara de mais. Ele! Oh, estúpida, porquê a admiração? Ela trabalha cá. Ora essa. É lógico que venha cá! Estava de fato cinzento-escuro, o que lhe ficava melhor, camisa cinza azulada e gravata azul escura com risquinhas vermelhas, ou pintas, sei lá. Com aquele ar descontraído de quem veste um fato e põe gravata mais facilmente do que ela conseguia pôr os collants de manhã! Bem barbeado, cabelo certíssimo, sapatos a brilhar e... telemóvel desligado, como sempre. Mas era o sorriso, quase cândido e por isso mesmo, para Ana, revelador de ter chegado àquela paz interior que ela precisava, tretas. Ele tinha lá chegado, mas por baixo daquela capa, que aliás era natural, havia um turbilhão de vivências, de coisas boas e más que preencheram todos os cantinhos do seu cérebro e o deixaram naquele ponto de serenidade que Ana tanto desejava para si (entenda-se a serenidade, claro!). Ana era mais como o seu computador portátil, daqueles que se vêem encaixotados e são sempre uma surpresa. Quando trocou o seu mostrengo a que chamava computador, mudou precisamente para um portátil, caro, mas extremamente útil para trabalhar em qualquer sítio, o que aliás lhe veio estragar fins de semana completos, quando antes disso só lhe estragava os domingos à noite, em que ficava de castigo muitas vezes a imprimir documentos à pressa. Pois ela lá conseguiu instalar os programas que precisava, mas escapou-lhe um pormenor. Bem, já que ninguém nos ouve, só no terceiro dia a explorar o bicharoco é que descobriu que devia configurar o monitor para que a imagem ficasse do tamanho normal. Mas a grande vergonha dela era que não encontrava alguns mega bytes de memória. Ficou aborrecida. Por várias vezes pensou nisso, mas antes de terminar a garantia de um ano, imagine-se, lá teve coragem, avançou num menu desconhecido, fez clique e... voilá, descompactou o segundo disco. Ali estava ele. Vergonha, não é? Ana fez isto com o computador, mas ela continua com um disco compactado. Tem muito medo de fazer clique. Está a desperdiçar memória, está a poupar o processador e não faz explorações. Que seca, é verdade.
Entrou na sala de professores e lá estava ele, sentado, rodeado de papéis e pastas.
- Oh pá, estou aqui... perdido! ¾ Apelou ele a Ana, que pensou, perdido? Oh, meu querido, eu agarro-te, eu oriento-te.
- Sim? O que te aconteceu? ¾ Inquiriu Ana.
- Olha, ando sempre a queimar, deixo juntar muitos papéis e depois é isto.
E parou-lhe o cérebro outra vez, e lá vem a arritmia novamente, oh, que tragédia!
Eu estou a aparvalhar. Isto não é normal, deixa-me cá beber um copinho de água fresca. E é melhor fumar um cigarrito também. Como é que ele será sem roupa? Com o desporto que ele pratica, deve estar em boa forma, deve sim. Eu já estive melhor, por acaso, mas ficava boa num instantinho.
E foram conversando sobre o que tinham feito, sem lhes ocorrer nada de especial, sob o olhar de alguns colegas que já os imaginavam em ardentes cenas de sexo, o que deixava Ana fula. O facto de ser uma das poucas professoras solteiras e novas daquela escola, não costumava ser muito agradável. Estavam sempre a inventar-lhe arranjinhos. O pior de todos tinha sido com um colega dela, feio, casado, que cheirava mal e era parvo. Dessa vez foi avisada que a história correra pela escola e curioso ou não, ninguém acreditara. Este foi o único ponto agradável da mesma. Ao menos que tivessem inventado algo mais interessante. “Mas, esquece. Agora, o que é que eu faço aqui com este pão? Vamos lá analisar a coisa. Ri-se para mim, é simpático comigo, já me deu boleia, já me levou a... almoçar. (E o que é que isso tem?) Enfim, um verdadeiro cavalheiro. E provavelmente é só isso mesmo. Por outro lado, a que outra mulher ele fez isto? Cá na escola... a ninguém. (Já tinham saído todas) Mas claro que terá as suas amigas, se bem que sei que não tem namorada. Estou a pensar como se tivesse metade da idade que efectivamente tenho. É uma vergonha. Mas de qualquer modo continuo a não perceber porque é que não telefona, por exemplo, ou avaria qualquer coisa, ou perde mesmo qualquer coisa e não precisa de mim e, quando falto a um treino (treinamos desportos diferentes no mesmo lugar da cidade) me vem dizer no dia seguinte: “Ontem não te vi, não foste?” Aí, fico com a nítida sensação de que além de ter perdido um treino que não me sai propriamente barato mensalmente, ainda perdi uma oportunidade que, chego agora à conclusão, é somente o que ele precisa. Claro que isto é pura imaginação. As mulheres é que têm tendência a baralhar-se com o que julgam que os outros pensam. Dentro da escola, confiança a mais dá mau resultado, os outros vêem e imaginam em demasia. Ora porra! E não tenho direito a vida privada? Será que fora da escola é mesmo diferente? Não deve ser. Acho que era capaz de sair a correr da cama para ir ao treino, ou para preparar a súmula seguinte, deixando-me lá sozinha. Não que não seja gentil, mas... não consigo imaginar que algum dia me levasse a sério. E sendo esse o caso, não quero gastar as minhas energias a lutar só para que alguém repare na minha presença. Habituou-se a que eu estivesse disponível para desenrascar papeladas, disquetes e coisas que tais. Um amigo porreiro daqueles a quem nem é preciso telefonar, pois não ficam tristes com essa falta de comunicação.”

- Bem, com a Protecção Civil de prevenção por causa dos ventos ciclónicos, eu bem que podia ter trazido um saquinho com roupa e dormia cá na escola. Sempre poupava o susto da viagem. De qualquer modo só costumo ir a casa tomar banho e dormir. -gracejou Ana, olhando-o.
- Pois é - ele sorriu - eu também, é praticamente isso.
Os demais colegas continuaram a comentar o assunto, julgando acerca dos avisos que poderiam causar algum pânico, referindo inclusive que vários alunos estavam receosos da “tempestade marcada para as seis”. Ana pensava na sua casa, onde chegaria pelas oito da noite, depois de vinte minutos sob uma chuva feia e triste, já de noite, com a sua miopia e astigmatismo que a fazia ter pavor de conduzir com chuva mesmo de dia. Chegava a tremer por vezes, enquanto conduzia. Assustava-se mais com o pensamento de que podia ir a oitenta, estar a chover a acertar num camião. Nunca conseguia afastar este pensamento da ignição.
E quando chegasse a casa, depois de mais uma sessão de troca de impressões com as escovas do pára-brisas, vestiria o papel de filha, profe que chega a casa arrastando o seu génio dentro de uma. Se aquela pasta falasse... contaria que ela era muitas vezes posta de lado no recreio porque não tinha uma Barbie, e que jogava futebol com os sapatos de verniz porque achava que os rapazes eram mais normais do que as raparigas (que até desenhavam princesas gordas e de cabeça achatada!) A pasta contaria também que Ana teve uma paixão assolapada por um colega de turma que dizia “sss” a mais. A pasta contaria também que Ana não gostava do clima da faculdade, em que aqueles que ficavam horas a dar graxa aos professores ganhavam algo com isso. Ela ficava horas a dar graxa às fotocópias de exemplares em francês para aprender morfologia da língua portuguesa! Foi essa pasta que ela insistiu em continuar a usar no seu emprego. E não me admirava nada, se na reforma, ela continuasse a usá-la para transportar os seus livros de cabeceira, que costumam ser tantos e tão variados, que parecem demolir a própria mesinha de cabeceira. Aliás, quem entrar no seu quarto deduz que está ali um móvel porque se vêem gavetas à frente (nas quais também cabem uns quantos livros) e, em cima, vê-se o topo de um arranjo de flores e de um candeeiro.
Quando chega a casa, põe uma carita tal-ou-quê e diz “Olá, já cheguei”. A palavra “já” que lhe sai da boca invariavelmente tem subjacente os olhos julgadores da mãe que sempre foi de poucas liberdades. Ana tem sempre presente e a funcionar um despertador que em vez de apitar, diz, com a voz da mãe, com um som que ecoa no infinito do cérebro esvaziado de Ana: “Já fizeste outra vez...sou sempre eu... então, só agora?” E Ana consegue nem sequer se divertir só de pensar, à saída de casa, que qualquer que seja a hora da saída, para a mãe, já devia ser sempre e impreterivelmente hora de entrada! E porque é que Beatriz continua assim aos quase trinta anos? Desculpas há muitas, mas a razão principal é que nunca gostou de magoar ninguém. Tem medo de magoar, tem pavor de magoar, porque sabe como é ser magoada.
Pois então, como desistiu de jantar a horas, lancha aquilo que tem na vontade, toma um duche, faz de conta que se penteia, veste o pijama e o roupão, prepara a roupa para o dia seguinte, prepara últimos detalhes das aulas e se não tem nada que corrigir, afunda-se num cantinho do sofá, acompanhada da almofada, da manta e do amigo telemóvel que passa os serões a consumir a bateria em vez de fazer aquilo para que foi inventado. E lá fica tentando decidir se lê ou se vê pedacinhos dos programas de televisão. Também, ou vê filmes que já viu uma dúzia de vezes, ou programas que não lhe interessam. Os pais costumam adormecer no sofá, e ela também. Sempre é melhor desligar da realidade do que ficar à sua mercê.

Tem acordado estupidamente cedo, para ficar a ver os minutos a passar no relógio, minutos vermelhos na escuridão. Anos que passam na sua vida escura.
O passatempo preferido de Ana é observar as pessoas. O sonho era saber desenhar, captar os estados de espírito das pessoas, saber o que lhes passa pelos olhos, mas do lado de dentro. Só tenta. O resultado nunca a satisfaz. Provavelmente é perfeccionista e nunca na sua vida estará satisfeita com nada.

- Ó menina, tu almoças cá na quinta-feira? Sabes o que é a ementa? Eu passei ali e nem vi. ¾ perguntou ele na terça-feira de manhã.
- Olha, estava a pensar que tenho duas horas de almoço, porque a turma do 12º C está na visita de estudo - respondeu Ana, esperando ansiosamente a sugestão que se seguiria.
- Ah, olha, então almoço contigo.
- Queres então que marque almoço para ti? É que eu tenho de marcar os meus.
- Não te importas?
- De modo algum. Eu marco então para quinta-feira. Está combinado - rematou Ana em jeito de mudança de assunto quando ouviu o toque de saída que traria dúzias de indiscretos ouvidos para a sala de professores.
Na tarde desse dia, tinha reuniões intercalares, sem no entanto contar com a presença dele. O dia foi correndo, as reuniões passaram, foi para casa, dormiu, acordou, saiu, chegou à escola. Mais um dia que seria longo. Tinha aulas e direcção de turma até às sete e meia da noite e a seguir mais uma reunião que se pretendia rápida. Foi, foi. Saiu da escola às nove da noite e foi mesmo a casa tomar banho e dormir.
Quinta-feira de manhã, que é como quem diz, às seis da manhã, Ana acordou, embora cansada, mas sem suportar mais dormir agarrada à almofada. Esperou até às sete e levantou-se, arrumou-se e saiu.
Tomou o pequeno-almoço na escola e começou o seu dia de trabalho. Tinha feito um esforço para não se vestir como quem vai à horta, como costumava dizer. Lá pôs uma saia comprida, um camiseiro por baixo de uma camisola fofinha, esqueceu-se e levou novamente a carteira que tinha aspecto de ter estado presente na primeira e segunda guerras mundiais, Vietname, Golfo e ainda num derby Benfica-Sporting.
As aulas da manhã decorreram bem. Ao chegar a hora de almoço, quando se dirigiram à cantina da escola, informaram-nos que os almoços tinham sido alterados devido às visitas de estudo. Perante este facto não foi preciso falar sequer na solução.
Carlos virou-se para Ana e perguntou-lhe:
- Estás com tempo?
- Eu estou. - disse ela, contente por reparar que afinal pensavam do mesmo modo.
- Então vamos. - disse ele. Despediram-se com um seco “até logo” do funcionário de serviço aos almoços, viraram costas, saíram da escola, meteram-se no carro dele e foram até um restaurante italiano que não ficava nada longe. Fora uma sugestão dela. Tinha lá ido arrastada por uma amiga e tinha gostado.
- Então é porque é bom - dissera ele com ar simpático.
Ele escolheu “spaghetti a la carbonara” e ela, como não podia deixar de ser, uma piza que acabou por aparecer com umas anchovas irritantes lá pelo meio. “Devem achar que sou alguma foca,” pensou ela. Beberam vinho tinto da casa, que era bom, macio e encorpado, embora sem nenhuma outra característica de realce. Ele enchia-lhe o copo com naturalidade. Conversaram com naturalidade. Falaram novamente de si mesmos com naturalidade. Sempre que estavam sós e fora da escola era assim. Parecia tudo muito natural. Ana pensou que isto se devia ao facto de as coisas serem mesmo naturais. Tinham origens semelhantes, percursos diferentes. Ela ficara sempre na mesma cidade. Ele andara por todo lado, a estudar e a trabalhar. Ele era um pouco mais velho que ela. Por fora. Ana não sabia bem como ela própria era por fora. Decerto ninguém sabe isso. Achamos sempre que somos de um determinado modo, mas provavelmente quem nos circunda pensa diferentemente. Ana entristecia-se por achar que não crescia por dentro, só envelhecia por fora. Mas quem trabalhava com ela dizia que ela era super organizada (“se eles vissem o meu guarda-fatos”), calma, sincera, criativa e sensível (“provavelmente sou sensível demais”). Podia estar a criar uma imagem dele, e estava mesmo, e estava ciente disso mesmo, desse processo enganoso que deriva da imagem, da aparência. Mas não era isso que ela queria. Ana queria conhecê-lo, como ele era, e no emprego isso era impossível. Mas tinham tão pouco tempo que mesmo que se esforçassem muito conseguiriam talvez passar umas quatro horas juntos por semana. Isso não é nada. Pensou. Tenho que fazer alguma coisa quanto a isso: vou desistir!
O almoço correu bem. Quando chegou a conta ele insistiu em pagar e Ana ficou um pouco envergonhada, já que tinha sido ela a sugerir o lugar que não era nem caro, nem barato, e ainda por cima só ela comera sobremesa. Novamente o sentimento de culpa. Que horror, que mesquinhez. Pronto, se ele quer pagar, que pague, é porque não lhe faz muita falta, apesar de não termos recebido o ordenado.
E voltaram para a escola mais animados. Ela só tinha papelada para arrumar, ele tinha aulas para dar. Lá se passou a tarde.
Quando saíram, por coincidência, à mesma hora, ele despediu-se com dois beijinhos, que ela estranhou, pois não era hábito dele. Ana gostou dos beijinhos, especialmente porque foram acompanhados de um belo sorriso e olhos brilhantes. Declare-se aqui que o almoço e o vinho já tinham passado havia quatro horas! Que foi aquilo então? Má digestão!
Como o fim-de-semana era prolongado, Ana passou três dias a olhar para o telemóvel de meia em meia hora. Mas nada aconteceu.
Eu sou uma desgraça. Bem, ele não me liga porque está a trabalhar. Ou não? Bem, o facto é que... não liga. Para compensar, Ana ligou para a linha de informações permanentes e foi teclando para saltitar de menu em menu, sem ouvir nada até ao fim. Desligou. Gastei dois minutos e dez segundos. Lá vão mais uns trocos. Se eu namorasse por telefone, gastava bem mais. Antes gastasse. Não! Antes não fosse preciso o telefone.

“Rio, rio, rio,
rio para não chorar.
Pois na verdade sou rio
A cantar”.
Foi a primeira coisa que lhe veio à cabeça na segunda-feira de manhã. Aquele refrão da Daniela Mercury que parece alegre e triste ao mesmo tempo, pelo jogo de palavras tão bem cantado. “Oh, cerebrozinho cansado que tu tens, Ana. Gasta-lo sem necessidade.”
Na escola, encontrou-o sério, pouco falador...
“Mas que merda esta! Já desligou outra vez”. Ana entristeceu ainda mais. Não sabia o que havia de fazer.
“Isto não é uma obsessão, não é uma tara, não é uma toleira de adolescente. Eu gosto dele, porra, e muito. É legítimo não é? Porque é que ele não me dá troco? Como será que ele me vê? Como uma miúda chata, sem piada, sem iniciativa e sem perfil de modelo? Deve ser mesmo isso. Mas se é, porque é que, na maioria das vezes, é tão simpático comigo? Só se for masoquista. Ai, Ana, Ana, esqueceste-te de um pequeno pormenor. Ser simpático faz parte da sua formação académica e profissional. Não te confundas e vê lá se paras de ser estúpida. Não gostes nem sirvas quem não te merece! Jesus fez isso e vê só o que lhe aconteceu. Vê lá se aprendes a diferenciar amizade de amor (se é que isso existe).”

Mas dentro da cabeça de Carlos…
“O que é que ela tem hoje? Estava tão linda na quinta-feira, tão doce, tão autêntica. Agora parece que voltou a pôr aquela capa. Caramba, ela não é minha professora, comigo não é preciso teatro nenhum. Só quero que ela seja ela mesma. Esta história de trabalhar também aos fins-de-semana não me ajuda nada. Ela fica sempre em casa com os pais. Parece que atira com o trabalho todo para esses dias, como se estivesse a fugir de alguma coisa. E eu não posso deixar de ir ao treino hoje, senão... senão nada. Ela trabalha até mais tarde hoje. Ela está sempre a trabalhar, e quando não está, enfia-se em casa. Nunca a apanho sozinha. Também, se isso acontecesse, eu ia pensar que era um bocado solta demais. Não é que eu não goste de ter uma amiga que saia à noite, e por aí... Mas meninas certinhas são outra história. Mas também ainda não percebi a Beatriz. É tão certinha, mas parece que lá dentro é um vulcão. O que eu acho engraçado é que quem a vê normalmente com aquela roupa larga, nem sonha as pernas e ancas que ela tem. Boazona. Não é uma beldade, nem tem os longos cabelos negros que eu adoro, mas é, por isso mesmo, bonita. E muito bonita por dentro. É tão sensível que me assusta. Aqueles olhos têm raio-x. Trespassam-me. Acho que ela nem se apercebe disso. Olha-me tão fundo que me causa arrepios, que não são propriamente desagradáveis. É tão natural a conviver, pelo menos comigo. Quando fui trabalhar para escola, foi simpática desde os primeiros dias e até me deu valentes ajudas. E tem-no feito. Tão gentil e diligente. Será que ela sente algo por mim? Será que finalmente não vou partir o nariz na porta? Acabo sempre por escapar aos compromissos e sinto-me só. Quero assentar. Será ela?”

“Porque será que dizem que são os homens que tomam decisões? Nunca vou entender isso. Eu sou da opinião de que eles costumam ser empurrados para as decisões. Só não digo por quem, para não ser mazinha.”

Alguns dias e almoços depois, ela passou numa rua onde sabia estar o carro dele. Estacionou o seu, saiu e esperou um pouco. O dia seguinte iria ser importante para ele, ela sabia disso. Ainda mais, estariam quatro dias sem se encontrar. E não foi de meias medidas. Foi um daqueles “repentes” como Ana dizia. Pensou que não sabia a que hora terminaria o treino dele. Com um pouco de sorte era às sete e meia. Com o azar normal seria depois das oito. Foi esperando e gelando. Estava um vento frio de Dezembro que ela não apreciava especialmente. Além disso, era noite e o local pouco aconselhável. Quem passava olhava com desconfiança.
“Assim não dá, e tenho de ir para casa, caramba.”
Lembrou-se que lhe tinham oferecido uma rosa, na brincadeira, numa das aulas desse dia. Ela vira-a. Estava na carteira de Ana. Arranjou um papel branco, escreveu uma mensagem de felicidades para o dia seguinte, não assinou. Dobrou o papel, meteu a rosa lá dentro e prendeu a sua missiva na escova do pára-brisas do carro dele. Dirigiu-se ao seu, entrou e partiu. O mais provável era: a) alguém retirar a rosa, b) chover a potes e estragar a mensagem, c) ele entrar disparado e nem reparar. Acreditou mais na hipótese c). Já imaginava o carro em pleno andamento, a chuva a começar a cair, ele a ligar as escovas e lá vai rosa para o chão... já agora podia passar um camião em sentido contrário para esborrachar a flor e destruir para sempre aquela mensagem que traduzida era só “um grande beijo para ti, vou ter saudades tuas nestes quatro dias intermináveis”.
Durante o dia seguinte chegou a ter o telemóvel ligado nas aulas. Também ninguém reparou, não tocou, como é óbvio. Depois de um almoço terrível de carne e puré, que lhe provocara vómitos, ia dar teste de duas horas a uma turma do 12º ano. Começou então a definhar.
Tinha andado a pensar tanto, ou melhor, a sonhar tanto que se esquecera de coisas urgentes. Tinha cinquenta minutos para resolvê-las todas entre as últimas aulas e o seu treino de quinta-feira. Será que ele iria aparecer para o treino dele, por coincidência ou sorte, à mesma hora do de Ana?

“Será que ele viu a rosa? Será que ele se lembra da alcunha por que eu o tratei? Fui eu que inventei. A mensagem tinha pelo menos duas pistas bastante claras. Mas ele às vezes parece tão distraído que já nem afirmo coisa nenhuma. E se ele viu e não achou piada nenhuma? E se ele namora ou sai com alguém que eu não conheço? E se o sentido de humor dele não combina com estas coisas? Bem, tenho a consciência tranquila porque não abusei e também porque finalmente fiz alguma coisa diferente. Porra! Fiz! Só que ainda não resultou. Pronto, lá estou eu com a pressa toda. Já me dei mal com isso, não em vidas passadas, mas mesmo nesta. Tenho a mania de trabalhar e querer resultados imediatos, visíveis, preto no branco. Nem todas as pessoas são assim. Então, é nessa parte que entro em derrapagem cerebral. Acelero, acelero, e é só areia debaixo dos meus pés.”

Mas que depressivo. Que horror. Vocês continuam a ler? Que pachorra.
Pachorra era o que faltava a Ana. Não se entendia bem com esperas e irritava-se com os seus próprios erros. Lera havia uns dias uma citação do Dalai Lama: “só há dois tipos de problemas: os que têm solução, portanto não nos devemos preocupar com eles, devemos sim partir para a resolução; e os que não têm solução. Com estes não vale a pena preocuparmo-nos. Para quê? Não têm solução!” Ele tinha razão. Mas a raiz do problema era a definição que Ana tinha criado de “problema”. Aquilo que para os outros eram simples acontecimentos, era sempre decomposto por ela em factores, causas, consequências, hipótese de resolução, projectos de resolução, requerimentos para autorização de resolução, análise de variantes e... solução. Isto significava que normalmente a cabeça de Ana era um emaranhado de raciocínios indescritíveis e desnecessários, por duas razões:
Primeira, inventava problemas onde não os havia, pelo menos para todas as outras pessoas que ela conhecia;
Segunda, demorava tanto a pensar nesses “problemas” que ainda ia na pré-resolução do primeiro e já tinha mais dez para começar a analisar.
Era então que ela gostava de acreditar que Deus existe. Esperava sempre por uma réstia de justiça. Incrível, mas Ana por vezes descobria dentro de si algo de maravilhoso a que gostava de chamar esperança, embora no dicionário se chamasse desespero ou alucinação.

Ele nunca falou na flor, nunca agradeceu a simpatia. Continuou a ser bom colega. Ana entendeu que sempre que achava que alguém era distraído (em relação ao que ela dizia a essa pessoa), não se tratava de distracção. Era pura e simplesmente ignorância da tal a quem chamavam Ana, uma pateta alegre que tinha a mania de fazer má cara e adorar toda a gente.
Ana deixou-se morrer aqui. No final de Dezembro. Na passagem do ano, do século, do milénio. Isto se o calendário gregoriano continuar certo!...

Homens!

É uma das histórias que nos contam, certo?
Acho que não colou muito bem devido aos interesses da indústria petrolífera e da construção. Se fosse assim tão fácil, ninguém ganhava dinheiro com as viagens e deslocações nos últimos milénios. Posted by Picasa

O berdadeiro mapa de Portugale

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Pronto... eu não sou fundamentalista, mas gosto de frango

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Quinto Fantasma - Junho de 1999




Encontrou-a por acaso, quando ela estava prestes a entrar no carro, que iria trocar daí a poucas semanas. Parou em cima do passeio, saiu do carro e dirigiu-se a ela de braços abertos, num gesto de fraternidade incomensurável.
-Então, como estás mulher? Perguntou Bruno amigavelmente.
- Bem, obrigada. Já conseguiste comprar o teu apartamento? Inquiriu Beatriz, tentando traçar a rota daquele Bruno sempre fugidio.
¾ Olha, comprei e já está mais ou menos mobilado. Agora vai andando, devagar, não é?
Acabou por lhe dizer onde era, e Beatriz perguntou-lhe se já aprendera a passar roupa a ferro, lavar, limpar a casa, etc. Claro que ele não deu parte de fraco. Ia sair-se às mil maravilhas. Beatriz acreditou. Desde novo que Bruno fora deixado um pouco ao acaso. Os pais sempre se preocuparam mais com o trabalho e a irmã. Bruno parecera-lhe por vezes ressentido com o mundo. Ela chegara a ter medo dele, por isso concordava normalmente com ele. Não percebera bem como, mas no meio daquele egoísmo que ele apresentara a Beatriz como parte de si, ela conseguira gostar imenso daquele homem. Feito o balanço, continuava sem perceber ("o amor não respeita razões"). Aventurava-se a julgar, sem ideias de psicanálise, que tal como nunca ninguém se empenhara muito em fazer Bruno parte integrante da família, em vez de “o filho do meio”, ele achava ainda ou cada vez mais que não tinha sentido sequer ter algum tipo de compromisso com alguém. Claro que isto era a imaginação de Beatriz a funcionar.
Ficou a saber que Bruno tinha uma companheira, que por acaso estava num estágio profissional em França, quando ele lhe disse:
- Se quiseres tomar café até 15 de Julho estás à vontade... Ela só volta a dezasseis.
- Não me confundas, sacana.
E a discussão foi feia. E final. Não voltaram a ver-se. Não voltaram a dançar, não voltaram a cantar, não voltaram a passear. Perderam-se para sempre. Ele deve estar agora com uma vidinha que sempre negou a Beatriz, mas que qualquer outra mulher sábia lhe soube fazer gostar. Ela continua sem perceber se vive ou não dentro deste livro.

Quarto Fantasma - Junho de 1998


Aquela cidade era espantosa. Encontrara já imensos símbolos que Paulo Coelho referia nas suas obras. Ela lera-as todas, como se da sua vida se tratasse. Adorara Brida. Bruno nunca percebeu porquê. Bruno nunca a entendera, aliás. Tomara-a como mulher moderna e simples, depois encontrara-a como menina dos papás e assustou-se quando a viu rugir. Beatriz sabia que não tinha sido assim. Foi uma catadupa de mal entendidos. Duas pessoas falhadas emocionalmente encontraram-se de um modo muito curioso e até... giro. Encantaram-se e tiveram pressa de que tudo resultasse. Mas nenhuma relação se baseia em braços de ferro. Foi o que eles fizeram.
Beatriz foi levada à força para Santiago de Compostela. Os seus olhos doridos que não dormiam havia semanas abriram-se para as pedras, para as imagens, para as vieiras sempre presentes, a Lua e o Sol, e as imensas preces dos peregrinos. Beatriz era uma peregrina. Doía-lhe a alma, chegava a pensar que não a queria mais. Queria parar de sentir. Apreciou com delicadeza a gastronomia local. O seu estômago estava embrulhado. Tudo o que vira Galiza fora rodava à volta daquele centro que para ela era único, sem saber porquê; tudo o que vira estava filtrado pelos ansiolíticos que tomava agora, em busca do equilíbrio que tinha antes de conhecer Bruno. Tomava-os de manhã para acalmar, às refeições para fortalecer, à noite para conseguir esquecer tudo e dormir quatro horas de repouso artificial, receitado pelo seu médico. O diagnóstico não fora suave: depressão, “deve descansar muito e evitar a situação que lhe causou este desgaste. Vê alguma possibilidade de resolver a bem esta situação? O problema é passageiro ou afigura-se-lhe permanente?” “Creio que é vitalício, senhor doutor.” Foi a conversa em que Beatriz se apercebeu que a sua vida não seria mais a mesma. Crescera tudo de uma vez.
Bruno negara-a. Não a aceitou como ela era. Hoje é o aniversário dele. Com quem é que ele estará? Estará triste ou não? Lembra-se de mim? Não resisto, vou mandar-lhe um postal daqui. E mandou mesmo.


"As emoções eram cavalos selvagens e Brida sabia que, em nenhum momento, a razão conseguia dominá-las por completo. Certa vez, tivera um namorado que partira por uma razão qualquer. Brida ficara em casa durante meses, a explicar todos os dias a si mesma as centenas de defeitos, os milhares de inconvenientes daquele relacionamento. Mas todas as manhãs acordava e pensava nele e sabia que se ele telefonasse acabaria por aceitar um encontro."

Adivinhem lá que árvore é esta...

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“Ninguém merece as tuas lágrimas , e quem as merecer não te fará chorar.”

Gabriel García Márquez

quinta-feira, 4 de maio de 2006

Uma das vezes que subi o Rio Douro

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Evolução?!

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As sombras que enriquecem os raios de luz

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O meu lema

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quarta-feira, 3 de maio de 2006

Caminhos de...?

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Terceiro Fantasma, 23 de Dezembro de 1997



Mais uma vez adormecera. Era o primeiro dia a sério das férias do Natal. Agora não tinha alunos para aturar. Tinha combinado, por acaso, ir com uma amiga à feira que havia todos os dias vinte e três. Combinara ir buscá-la às nove e dez, pois a feira começava cedo. Eram nove menos cinco, e nem teve tempo para comer decentemente. Tomou um duche à pressa. Nem se penteou bem. Normalmente não ligava a essas coisas. Não se vestia bem, não gostava de usar maquilhagem, não ligava a mínima importância ao aspecto que tinha. Por isso tinha vinte e seis anos e não tinha namorado — pensava.
— Que se lixe! Estou de férias. — disse para as paredes.
Calçou umas meias de lã, vestiu umas calças de ganga, uma camisola esverdeada e um colete de lã. Calçou umas botas tipo tropa e pegou no "kispo". Saiu de casa e foi de carro até casa de Catarina. Bem, a Catarina era mais nova que ela, portanto, Beatriz esperou que Catarina pintasse os olhos, pusesse batom e escolhesse umas botas num armário com botas que nunca mais acabavam.
Lá saíram então, passava já das nove e meia. Passaram por um Multibanco, onde deviam parar, mas Beatriz ia distraída e, para evitar uma travagem esquisita, continuou. Pararam no Multibanco seguinte. Beatriz acabara de estacionar, quando passou um carro que estacionou à frente delas. Catarina quase gritou:
— Olha o Bruno!
— Qual Bruno? — perguntou Beatriz sem perceber.
— O Bruno, aquele de quem estás farta de ouvir falar. Está diferente... ai, mas é ele, anda, anda...
E saiu disparada do carro, enquanto Beatriz trancava as portas. Quando Beatriz chegou perto de Catarina, viu o tal Bruno, o famoso, o divertido e impecável Bruno de quem lhe haviam falado os seus amigos. Era alto, de olhos castanhos, com um cabelo escuro e forte, uma voz linda, vestia calças de ganga e um blusão vermelho. Ficou com cara de admirado quando Beatriz lhe disse que já ouvira falar muito dele.
Beatriz virou-lhe as costas e disse que ia levantar dinheiro. Bruno e Catarina continuaram a conversar. Iam todos levantar dinheiro. Bruno também passara um Multibanco pelo caminho, mas decidira ir àquele. Coincidência.
Foi um Bruno muito sorridente que se virou para Beatriz e Catarina e disse:
— Não querem tomar um café? Podemos ir ali, àquele. Se tiverem tempo, claro.
Quase que adivinhara os pensamentos de Beatriz: "Mas agora esta. Porra, já é tarde. De onde é que caiu este fulano? Tão simpático. Será mesmo verdade?"
Bruno insistia em olhar Beatriz nos olhos, mas ela esquivava-se. E iam conversando, sobre o que faziam, como estava fulano e beltrano...
Chegaram os cafés à mesa. Aliás, Bruno foi buscar os cafés, o que impressionou Beatriz: "Destes é raro ver".
Catarina com o seu descafeinado, Beatriz e Bruno pegam na chávena ao mesmo tempo e descobrem que nenhum deles põe açúcar no café. Beatriz assusta-se outra vez. São muitas coincidências juntas. É que ele também saíra de casa para ir à feira. Não, aquilo era demais. Beatriz tentou fechar-se na conchinha dela, mas Bruno voltava à carga, e Catarina começava a ajudá-lo.
Decidiram ir então à feira, antes que ela terminasse. Decidiram ir no carro de Beatriz, pois ela não ia entrar no carro de um tipo que não conhecia. Iriam os três, e Bruno deixou o carro num lugar mais adequado do que em cima da passadeira.
Enquanto ele foi arrumar o carro, Catarina começou a brincar com Beatriz.
— Ele gostou de ti!
— 'Tás parva ou quê? Ele nem me conhece — ripostou Beatriz.
— Estou a dizer-te que ele gostou de ti. Vais ver, vais ver.
— Só me faltava agora esta! — disse Beatriz, mas logo se calou porque Bruno chegou e pediu licença para entrar no carro.
Lá foram então, saltitando na carripana de Beatriz, em alegre cavaqueira sobre aquilo que Bruno fizera, fazia e com Beatriz a admirar-se com o fascínio com que ele falava das coisas que gostava. Parecia seguro de si, feliz, liberto e... atiradiço, embora bastante educado. Sempre delicado, sempre a pedir licença e sempre a fazer perguntas a Beatriz, o que ela achou estranho. Quem se conhecia ali e tinha assunto de conversa e coisas a recordar eram Bruno e Catarina.
Bruno ia à feira para comprar línguas de bacalhau e um presente para a afilhada. Catarina ia para comprar umas cerâmicas. Beatriz ia para comprar... cuecas. Mas agora não podia fazê-lo com um desconhecido de vinte e oito anos ao lado. Acabou por comprar meias quentes, umas pantufas e um casaco azul, que lhe ficou mais barato porque o vendedor era conhecido de Bruno.
Catarina desapareceu um momento, e Beatriz quase entrou em pânico. Ficara sozinha a ver pantufas com Bruno que ia fazendo perguntas sobre variadíssimas coisas. Aquelas variadíssimas coisas que nos mostram como pensam as pessoas, aquelas variadíssimas coisas que custam a dizer, pois sabemos sempre que quando nos são inquiridas, a intenção é bem grande.
Depois de umas voltas na feira, e de vários episódios em que Beatriz tentava caminhar ao lado da Catarina e logo lhe aparecia Bruno, voltaram ao lugar onde ficara o carro dele, junto ao Multibanco.
Aí, mais um assunto surgiu. Bruno comprara um telemóvel a um amigo, que lhe ficara baratíssimo, e andava às voltas com ele desde o dia anterior, pois a danada da bateria não encaixava bem. Beatriz comentou que o dela nunca tivera esse problema. Por acaso, até eram do mesmo operador. Catarina teve então a ideia que o pai dela ia ficar radiante por rever Bruno, e telefonou do telemóvel de Beatriz, para a mãe, a dizer que havia mais um convidado para o almoço. Bruno ficou atrapalhado, mas não seria delicado negar o convite. Pediu a Beatriz se ela não se importava de lhe dar o seu número, e ela um pouco a medo lá lho deu, e ficou com o dele. Ficava então combinado que Bruno o almoçaria em casa de Catarina, Beatriz ia a casa, fazer o almoço a casa e almoçar com seus pais, e depois, iria ter a casa de Catarina, acompanhada da sua roufenha viola.
Como já era um pouco tarde, apressaram-se nas despedidas, com Bruno sempre a rondar Beatriz, que levou Catarina a casa, para indicar o caminho a Bruno. Pelo caminho, Catarina insistiu com Beatriz, a dizer-lhe que Bruno estava a interessar-se muito por ela. Beatriz falou-lhe do medo que tinha, que as pessoas acabavam por fugir dela, que não "sabia andar naquilo", que tinha medo. Mas Catarina assegurou-lhe que Bruno era bom rapaz, sério e não ia ser parvo. Ela não tinha nada que fugir, nem tinha de se esconder. Devia deixar as coisas correrem. Chegaram. Mais uma vez se despediram, e Bruno insistiu:
— Mas apareces mesmo, não apareces?
Ao que Beatriz respondeu, sorrindo:
— Apareço. Às duas e pouco estou aqui.


Beatriz chegou a casa a correr, atrasada, mais uma vez, e começou a fazer o almoço para os pais. Quando chegaram, nem ligaram à narrativa da feira. Portanto Beatriz decidiu calar-se e ouvir todas as historietas do trabalho do pai e da mãe. Depois de almoçarem, foram embora, Beatriz arrumou tudo, e decidiu pentear-se. Mudou para umas botas sem lama, pegou na viola, enfiou-a no saco e foi, ansiosa e receosa até casa de Catarina.
Lá encontrou ainda todos à mesa, recordando velhos tempos passados em conjunto, terminando o almoço. O pai de Catarina saiu para o emprego, a irmã também, e ficaram Beatriz, Catarina, Bruno e a mãe de Catarina.
Bruno pensou que Beatriz sabia tocar viola, mas ela negou. Tentara aprender cerca de dez anos antes, mas deixara-a de lado por causa dos estudos e... da preguiça de treinar. Agora tinha um novo livro com canções e acordes e já passara algumas horas a tentar tocar de novo, com a ajuda de Catarina. Então, com uma concertina e duas violas, passaram parte da tarde a cantar, tocar e com Bruno a tentar personalizar o atendedor de chamadas, que ficou com os periquitos de Catarina como som de fundo. Claro que Bruno se desenvencilhava muito bem sozinho a fazer tal tarefa, mas insistia sempre na ajuda de Beatriz, que por acaso não percebia nada daquilo, porque o telemóvel era de outra marca e tinha opções diferentes.
Catarina ia piscando o olho a Beatriz, fazendo-a corar, porque se sentia cada vez mais cercada. Assim é que nunca lhe tinha acontecido. Tanta coincidência junta! E não havia maneira de Bruno desistir. Ela olhava-o, quando ele não se apercebia, e tentava encontrar-lhe defeitos à primeira vista, mas não conseguia.

Sintra

Por vezes conseguimos ver os raios de luz por entre as sombras. Só temos de olhar em volta.
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Segundo Fantasma, Setembro de 1993


Beatriz já não podia mais. Não aguentava aturar António. Estavam a terminar o curso na faculdade. Até nisso ele punha defeitos. O curso dele era melhor, mais produtivo e mais importante do que o dela.
Conheceram-se, estava ela no segundo ano do curso. De início, encontravam-se no autocarro, por acaso. Um dia, ele agarrou-a e beijou-a em plena rua. Beatriz ficou assustadíssima. Nunca lhe acontecera tal coisa. Nunca nenhum rapaz lhe fizera isso. As paixões dela normalmente ficavam com ela mesma. Os rapazes por quem se interessava eram puramente amigos e não viam nela nada mais que uma amiga. Durante o resto do curso, a relação foi-se alterando. Namoravam. António dizia-lhe que ela podia telefonar mais vezes do que ele, pois era filha única. Vivia a cinco minutos de casa dela, mas não se dava ao incómodo de ir até lá. Achava-a quase perfeita. Mas na cabeça dele, Beatriz tinha um defeito enorme e terrível (mais um): fumava. Eram também de religiões diferentes, o que veio acordar em Beatriz os valores que aprendera na infância, e passou a defendê-los com mais garra. Não admitia a ninguém que lhe deitassem o mundo abaixo só por não ser quem os outros esperavam que ela fosse. Os defeitos e acusações foram aumentando. Ela esperava que isto se devesse à tensão do final do curso. Mas não. Um dia, depois de almoço, ele disse-lhe:
— Sabes, é engraçado. Agora que estamos a acabar o curso, os meus colegas falam dos planos deles.
Ela escutou atenta e desconfiadamente, e para incentivar a conversa, disse:
— Ai sim?
E António continuou:
— É! Todos falam da namorada, que é a mulher da vida deles, que vão casar e essas coisas todas.
Ela teve então a certeza daquilo que queria e disse-lhe:
— Tu estás a dar essa volta toda para me dizer delicadamente que eu não sou a mulher da tua vida, não é?
Ele concordou, mas acrescentou ainda:
— Bem, é que... ainda não tenho a certeza.
Beatriz disse o que lhe ia na alma:
— Bem, António, se ao fim de dois anos e uns meses, ainda não tens a certeza, também nunca mais vais ter.
— Porquê? — perguntou ele admirado.
— Porque durante este tempo todo, tiveste a possibilidade de estar comigo, e não estiveste, porque não quiseste. Agora, cada um tem de arranjar emprego e nada nos garante que vamos ficar juntos na mesma cidade. Daqui para a frente vai ser complicado, e se ainda tens dúvidas, estamos mal.
Ele ficou calado, amuou. Depois passou-lhe. Passava-lhe sempre, sempre que se lembrava de sexo. Mas Beatriz evitava-o. Tinha dores de cabeça, estava doente, estava enjoada... até que lhe disse na cara que não queria. Para António, o sexo era algo que se podia tomar a todas as horas, em qualquer lugar, com água, com vinho, mesmo como "cura" das discussões. Para Beatriz, era algo de muito precioso, que não devia ser dado. Devia ser partilhado, chorado e construído a dois, como símbolo de um amor grande e pleno. E não era o caso. Nunca fora.

Beatriz começou a trabalhar. Como ia iniciar uma actividade para a qual só fora preparada teoricamente, socorreu-se da ajuda de pessoas amigas que sabiam mais. Deu por si a passar melhor o tempo a conversar com um amigo mais velho que ela. Ele aceitava as pessoas como elas são, não lhes punha etiquetas nem defeitos. Começou a pensar que a sua relação com António não tinha mesmo saída. Ele dizia-lhe que não podia viver sem ela, mas que ela conseguia magoá-lo muito, e muitas vezes. Isso também ele fazia a Beatriz.
António foi para outra cidade fazer um curso de especialização. Sorte a dele! Tinha um dia livre que coincidia com o de Beatriz, além dos fins-de-semana. Mas ele não ia a casa dela, nem lhe telefonava quando chegava. Passava esses dias livres com a mãe, ou às compras, sem sequer a convidar para um café que fosse.
Beatriz decidiu que não aguentava mais. Disse a António que precisavam conversar a sério. Ele perguntou-lhe:
— O que foi, chateaste-te com alguma coisa?
Beatriz ficou petrificada. Ele parecia alheado de tudo. Não compreendia. Para ele estava tudo bem. Quando lhe apetecesse, telefonava ou aparecia, ou punha defeitos, ou desdenhava do trabalho dela e ainda fazia um choradinho por sexo? Não!!! Beatriz não queria uma vida assim. António não sonhava, não vivia, era uma pessoa apagada, introvertida, não gostava de conhecer coisas novas, estagnava com demasiada facilidade.
Ela disse-lhe que assim não conseguia continuar, não era feliz. Ele apanhou um choque, chorou, implorou e finalmente reagiu. Disse a Beatriz para sair do carro. Estavam a cinco quilómetros de casa de Beatriz. Ela recusou-se a sair e disse-lhe que a devia levar a casa. Ele levou-a até ao cimo da rua. Beatriz entrou em casa à hora de jantar, ouviu um sermão dos pais pelo atraso, e depois informou-os de que "António já não há mais".
Ele telefonou-lhe no dia seguinte, no outro e no outro, mas Beatriz disse sempre o mesmo: "NÃO!"
O choque que ele apanhou no dia em que terminaram deveu-se ao único recurso que Beatriz conseguiu, para que ele a deixasse em paz: a mentira. Ela viu que ele não ia aceitar que ela pura e simplesmente já não gostasse dele. Então contou-lhe uma história. Disse-lhe que tinha conhecido outra pessoa, que se estavam a entender e que ela se sentia melhor junto desse "outro", do que junto de António. Ela soube que o magoou. Magoou-se a si própria também. Não havia nada além de uma amizade, troca de ideias, conversas e algumas pizas pelo meio. E ele acreditou. Ela sabia que António ia ter raiva dela, chamar-lhe nomes e tudo o mais que um homem ferido no seu orgulho de macho faz. Mas era a única saída.

Daí para a frente, Beatriz nunca mais soube nem quis saber nada de António. Levou o seu trabalho a sério, como aliás fazia parte da personalidade dela. Tinha os seus amigos e amigas. O "tal amigo" ficou realmente um amigo. Um dia envolveram-se demais e chegaram à conclusão que era um erro. Ele não abdicava da vida que levava: boémia, sem compromissos (excepto um que ele deliberadamente não contara a Beatriz), com muita variedade de companhias femininas. Ele tentou esconder-lhe isso, mas Beatriz descobriu. Aquele "caso" (se assim se pode chamar) deles, era segredo, pois havia amigos comuns que os iriam condenar se alguma vez sonhassem, a começar pelo facto de ele ser bastante mais velho que Beatriz. Beatriz decidiu que não queria viver assim. Então desapareceu do mapa. O "tal amigo" nunca mais a viu, e ela não teve pena nenhuma. Ficou furiosa consigo mesma por ser fraca. Jurou a si mesma nunca mais acreditar em amigos ou qualquer espécie de homem.
Tudo isto terminou em 1995.
Beatriz continuou a sua vida.

Primeiro Fantasma


Não pretendo assustar-te nem te forçar a recordar nada. Só me parece que algo ficou incompleto. Já sabes que bloqueio quando tenho de falar para salvar a pele. Por isso escrevo; ajuda-me a ordenar a cabeça (se é que a tenho) e também a arrecadar coisas fora de validade.
Esta é uma história, de pessoas que se conheceram, mas que nunca chegaram a conhecer-se, pois sempre tiveram pressa em tudo o que fizeram e não fizeram, deixando sempre para trás aquilo que deveriam ter observado no outro, e aprendido. É a história de pessoas centradas em si mesmas, sem espaço para "o outro" nas suas vidas. De pessoas que em dada ocasião se amaram, se apaixonaram e não souberam nem quiseram lutar por algo de grande que implica cedências e sacrifícios, feitos em conjunto, e não isoladamente, como aconteceu.
Vou ficar ofendida se não leres isto tudo. Tenta, pelo menos. Isto só vai ser mais uma parte de mim que podes fechar numa gaveta... ou não. Perdoa-me por teimar em me fazer ouvir, por lutar comigo e com os outros, por ser estúpida e te amar. Eu sou assim. Eu vou esperar por ti, quanto mais não seja para te dar um estalo.
“Acho que me apaixonarei muitas outras vezes”, disse para si mesmo. Não se sentia culpado por isso. A paixão era algo bom, divertido, e que podia enriquecer muito a vida.
Mas era diferente do amor. E o amor vale qualquer preço, não merecia ser trocado por nada.”


Paulo Coelho