quarta-feira, 14 de julho de 2010

RESUMO



Nota: como já antes referi, a divisão do texto numa espécie de capítulos, foi uma tentativa minha de o tornar menos pesado.

Por isso aqui está mais um bocado.

O pai Bártolo



RESUMO 2 (contituando...)

2 (Exames-Micro)

...

Volta a rotina de fazer exames aos alunos que andaram na mó-de-baixo durante um ano lectivo inteiro. Volta também a feitura dos horários, tarefa na qual colaboro há uns cinco ou seis anos com a coordenadora pedagógica, a título gracioso, entenda-se.

A semana de 4 a 8 de Setembro foi de loucos, com todas as tardes dedicadas aos horários, num dos dias até á uma e meia da manhã! Fazer isso para uma escola com poucas salas e muitas turmas não é fácil. Acrescente-se a isso formadores que o são em regime de acumulação, e lá vem a confusão de acertar nas vagas dos profes.Trabalho para esta escola de formação (de uma cadeia fundada ainda no tempo do Sr. Salazar) a tempo inteiro e mais algum. É um instituto público, mas estou lá desde 1993 a recibo verde. Porque continuo? Porque gostei sempre de ver as pessoas a sair com uma formação que lhes permite trabalhar com as mãos, fazer coisas realmente, e melhor que tudo: arranjar emprego. Só mesmo os baldas é que não conseguem. Mas desde 2001, o ambiente é diferente, chegou a política, a minha escola morreu. Vou começar o meu luto, este tempo todo depois. Houve algo que me abanou e me fez ter mesmo a certeza que a minha escolinha não volta.

Entretanto, devo disponibilizar uma manhã para revisões aos meninos que vão fazer exame; além da continuação da tarefa dos horários. O que os meninos querem é saber que perguntas eu vou fazer nos exames e quais as respostas que devem lá colocar. Para eles uma matriz de exame tem de ser uma lista “das coisas que vão sair”. Não há pachorra, mas a pressão para os passar é muita. Aliás, dar uma nota negativa num exame destes é mais uma marca no meu caderninho de mal comportada. Tenho esta mania de avaliar os conhecimentos de acordo com objectivos e critérios, veja-se lá que raio de coisa.

E chega mais um sábado com mais aulinhas de pós-graduação.


No dia 12 de Setembro, terça-feira, lá tenho uma consulta com o meu médico, ou melhor, com o médico que me conhece melhor, que trabalha na equipa do meu médico de família. Digo-lhe o que tem acontecido, pois não era com ele que tinha as consultas. Pretendo, mais uma vez, ir para a piscina. É obrigatório passar por vários exames de modo a que o médico de família ateste da nossa saúde para frequentarmos esse espaço em segurança. Lá me entrega as credenciais para os diversos exames que devo fazer. Pela tarde tenho de fazer os livros de ponto lá da escola. Devem estar a pensar que só lá trabalham duas pessoas, neste momento, não? Desenganem-se: tem uma secretaria normal, mas o pessoal administrativo do sector que se chama Gabinete do Aluno (três pessoas) não pode fazer livros de ponto: “enganam-se muito e deviam ser os directores de turma a fazer”.


Na quarta-feira, 13, o meu pai tem um exame marcado na cardiologia, mas felizmente está tudo bem.

Às 15 horas tenho reunião de grupo disciplinar, às 17 tenho reunião geral de formadores. Ando um bocado cansada, mas mantenho os meus 57 kgs.

Quinta-feira, 14, pai tem consulta de otorrino. Um dos ouvidos anda um bocado estranho. Poderá ter a ver com aquela história do equilíbrio, ou as tonturas poderão ter a ver com o coração, pressão arterial. Daí estes exames todos, para despistagem.

Chega sábado, mais um bocado do seminário da pós-graduação e mais 100 km.

Segunda-feira, 18, começam as aulas e a correria do costume. Os senhores formadores chegam e começam á procura dos livros de ponto que fiz, alguns colocam defeitos nas opções deste ano, outros nas etiquetas das chaves, enfim, mas hoje apareceram, ao contrário dos outros dias. Mas são verdadeiramente inteligentes: são pagos para dar formação, não para fazer outras tarefas, tal como eu. Eu é que escolhi mal e fiz mal.

Quanto aos alunos, vamos lá colocar na ordem os que já conheço, e tratar de conhecer os novos. É um pouco difícil para pessoas despistadas como eu. Todos usam uniforme, ficam todos parecidos e tenho de decorar nomes, idades, origens, e tudo o que me ajudar a compreender a pessoa que tenho á frente. De um modo geral não gostam da disciplina que lecciono, poucos sabem o que é um livro, ou mesmo o que é ler enquanto actividade. Também me assusta ter de ensinar por vezes as meninas a sentar-se decentemente se usam a saia do uniforme. Os meninos nem sempre sabem usar uma gravata, ou o próprio casaco do uniforme. Tenho de explicar que não é para arrastar pelo chão, ou usá-lo como um bicho morto estendido pelas costas. Não sei o que os pais lhes ensinam. Se têm tempo para ensina, se sabem ensinar, se acham que devem ensinar. Parece que agora é a escola que deve ensinar tudo. Prefiro pensar que no caminho para a escola, eles esquecem tudo o que diz respeito aos bons costumes caseiros. Podia ficar aqui a enumerar situações intermináveis, mas nem eu própria me aguento nesse aspecto.


Durante o mês de Outubro, a micro radiografia necessária para ingressar na piscina mostrou algo que não estava normal. Ligaram-me do BCG para passar lá e repetir. “Pode ser defeito da película, acontece por vezes”, disseram-me do outro lado da linha. E eu aflita para conseguir fazer tudo e não faltar a aula nenhuma.

Fui então ao BCG, e fiz um raio-X. Disseram-me para esperar, pois iria ser vista por um médico. Assim foi. Ele falava pouco ou nada. Fiz perguntas, obviamente. Não me deu respostas. Parece que é conhecido por ser muito bom médico. Para mim não foi, naquele momento, comunicou muito mal. Mandou-me fazer uma TAC, num laboratório conhecido cá na terra. Fui fazê-la á noite, acompanhada de uma minha amiga. Assim, não faltava a nenhuma hora de formação. É que se faltasse, teria de a repor noutro dia e hora, de modo que conviesse a todos, houvesse sala disponível, a turma coubesse. Era assim, tudo muito fácil.

Mais tarde, a TAC apareceu e fui convocada no BCG para nova consulta. Esta vez pedi a uma outra amiga que fosse comigo, porque pretendia fazer novas perguntas. Na consulta, tive a notícia pura e simples que teria de ver melhor “uma coisa que aparecia na TAC”. Iria fazer uma broncofibroscopia: “um tubinho que vai pelo nariz, com uma câmara vídeo, até ao brônquio.” Essa parte de ter um cano, mesmo que fosse fininho, a ir por aqui dentro, até ao brônquio, assustou-me. Fiz perguntas novamente, aconteceu o mesmo, para espanto da minha amiga. A única informação que consegui arrancar foi que não era tuberculose. Marcou a broncofibroscopia para o hospital mais próximo de minha casa. Disse-me para ir a um outro laboratório, pois teria de levar os resultados de um outro exame, que tinha a ver com a velocidade de coagulação ou algo do género.

Foi aquele médico, que nunca mais vi, que num telefonema e numa consulta de cinco minutos, traçou a meu rumo para os anos seguintes.

Numa quinta-feira, 16 de Novembro, lá fui. Não fiz o exame. Entrei e falei com a médica, que me explicou muito bem como era o exame, em que situações era usado, e quais os riscos associados. A coisa tomou um ar mais grave. Eu podia ter uma massa estranha dentro do pulmão esquerdo, e era isso que se queria ver. A palavra e o conceito de “tumor” instalaram-se na minha cabeça e comecei a funcionar mal. Não tive coragem de fazer o exame e tinha ido sozinha, o que não era nada aconselhável. Assinei um termo de responsabilidade, expliquei os meus motivos á médica e vim embora com a TAC na mão.

Fui logo a correr tentar apanhar o meu médico-anjo (do centro de saúde). Ele viu a TAC e explicou-me o que sabia. Eu teria um tumor, que poderia ser benigno ou não. Conversámos bastante acerca dos sintomas que tinha tido durante o Verão e acerca do caminho a seguir.

Por sorte, ele conhecia a médica que fazia os exames, aquele que eu não fizera. Falou com ela e conseguiu marcar outro, no dia 30 de Novembro, ao qual fui acompanhada de meus pais, de quem andava a tentar ocultar tudo, dado o estado do meu pai (a recuperar da operação e com alguns problemas de adaptação ao CDI).

Aqui tudo mudou. Passou a ser real na minha cabeça. Ficou feio e mau.

Havia jantar de aniversário da escola nessa noite, mas não fui. O exame é muito doloroso, tenho o nariz estreito, vê-se na câmara, e também se enfiam lâminas para colher tecidos para biopsia. Mas foi complicado, apesar de todos os cuidados da doutora T. É um exame que nos estraga por dentro, ficamos a sangrar. O nariz ficou massacrado, as cordas vocais também. Eu continuava, nesta altura, com a tal tosse seca, pelo que o endoscópio andava aos saltos. Mesmo com duas doses de anestesia (aquela igual á dos dentistas) comecei a sentir tudo, mas já nem me queixava.

Como a colheita não foi suficiente por causa da tosse toda, fiz uma outra broncofibroscopia duas semanas depois. Mas o cenário foi pouco diferente. O doutor J.P. já me fazia festinhas na cabeça e na cara. Vi pela cara dele, apesar de ter sido rápido a tentar disfarçar, vi que o que eu tinha era mau. Lá foram as lâminas para tirar tecido para análise, lá foi o lavado brônquico (sensação linda de afogamento). Depois mostrou-me uma parte do exame que tinha gravado. Afinal os nossos “canos” são cor-de-rosa. Depois disso vi o aglomerado de bolinhas que era o meu tumor. Havia tecido necrótico, que era branco. Azar dos azares, tudo isto estava alegremente colado no brônquio esquerdo, na primeira ramificação, no lobo superior. Se fosse mais abaixo, dava para tirar só aquela parte na cirurgia. Naquele momento não pensei nisso. Apesar de ninguém falar em maligno, ou nada que se assemelhasse a diagnóstico, eu olhava para aquelas bolinhas rosa com mau pressentimento. Não percebia nada do assunto, mas ia começar a pesquisar.

Só queria que me aliviassem do desconforto de ter tido um cano enfiado no nariz, sangrando, tossindo, cuspindo – uma verdadeira porcaria.

Estiveram a vigiar-me para ver da minha capacidade de coagulação. Fui para casa com uma esponja especial para enfiar no nariz; e com recomendações para não beber nem comer nada durante umas horas, devido á anestesia. Podia morder-me, e fazer coisas piores, pois a anestesia está lá, mas nós não notamos.

Tinha também de ter cuidado com as cordas vocais, até porque tinha de trabalhar no dia seguinte. Quanto às aulas que não tinha dado nestas duas quintas-feiras…bem, estavam sujeitas a negociação com as turmas e sua boa vontade.

Quanto a isso não me posso queixar, aqueles jovens a quem dei aulas, com idades entre os quinze e os vinte e cinco, revelaram ter muito mais apreço pela condição humana do que alguns elementos da direcção daquela escola, dos quais ouvi coisas inimagináveis, que mais tarde talvez relate.


Aqui fica mais um bocado. Depois volto...

Vejam se descansam.

O pai Bártolo

4 comentários:

sideny disse...

Olá Sr Bártolo

Ao ler este texto da Susana, fez-me relembrar o que eu já passei.

Nunca fiz o tal exame do tubinho, mas sim logo uma biopisia também ela no pulmâo esquerdo.

Entre os exames e os resultados instala-se o medo a angustia ,mas também a força e a coragem para vencer a doença.

beijinhos para si e sua esposa.

E obrigada por publicar estes textos da Susana

Anónimo disse...

Olá Sideny
Obrigado por nos acompanhar. Foi exactamente naquele dia que ficamos a saber que era muito grave. Esta segunda endoscopia acelerou o processo e a coisas tiveram que ser logo resolvidas...
É verdade que custa a passar o tempo entre exames e à espera do resultado, mas ali foi mais uma confirmação.
Vou continuar, mas hoje há para aqui uns problemas com a Net que ainda não consegui resolver, mas volto.
Beijinhos
O pai Bártolo

BRANCAMAR disse...

Pai Bártolo,

Li tudo com muita atenção e parecia que estava a ouvir a nossa Susana. Penso que ela guardou sempre estes escritos para si, pois aqui a princípio pouco se queixava, pouco dizia, ou tentava brincar, só realmente em finais de Julho como ela diz no cabeçalho resolveu extravasar mais o que sentia, só a partir de algum agravamento falou mais da doença.

Mas, há muito, muito tempo, desde a primeira vez que a ouvi que me disse naquela sua vozinha meiga: se vocês se habituam a que escreva e depois um dia não posso ir, como é?"

Senti que ela sabia que um dia não poderia mais vir, mas na altura tentei desviar a atenção dela para outras questões.

Obrigada pela sua partilha, ler estes textos é doloroso para vós e se não lhe apetecer não tem que o fazer para nós, embora goste de ler a Susana.

Beijinhos
Branca

Anónimo disse...

Olá Tia Branca
Eu já tentei responder-lhe, mas parece que o comentário se perdeu.
Andei para aqui a fazer umas actualizações e este portátil, agora parece estar doido, ou eu continuo a não perceber nada.
Pois é verdade. A Susana raramente se queixava e quando o fazia é por que já não aguentava mais, sempre na tentativa de nos poupar, mas nós apercebiamo-nos...
Eu não tinha acesso a esta blogue nem nunca quiz interferir, mas ela teve o cuidade de num do livrinhos, com o titulo "aos meus pais", de deixar tudo esclarecido, desde códigos de acesso a tudo, os sitios onde guardava algumas coisas, o que gostaria que se fizesse com o que deixava... Claro que eu lia tudo...
Acerca de escrever no blog, nunca que se manifestou claramente. Só me disse: "há para aí uns escritos...era para escrever um livro, mas..." e não disse mais nada. Eu penso ter percebido que gostaria da sua publicação e é isso que estou a tentar fazer.
Obrigado por me acompanhar.
Beijinhos
O pai Bártolo