quinta-feira, 22 de julho de 2010

RESUMO (6)

No seguimento do anteriormente publicado, deixo aqui mais um bocadinho

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6 – SONAMBULO

Estávamos três, nos Cuidados Intensivos: não havia divisão por géneros, pois estávamos todos imóveis e algaliados. Havia um biombo que era utilizado quando necessário. Quem conseguia andar podia tentar chegar ao WC mesmo á saída da sala de Cuidados Intensivos. Um dos meus colegas (o que entretanto já faleceu) era sonâmbulo. Uma bela noite acordei e vi-o em pé, prontinho a começar a andar dali para fora, levando atrás de si os frascos dos drenos, grandes, agarrados aos tubinhos. Pensei que ele ia cair para o meu lado, apesar de haver bastante espaço, e lembrei-me que poderia arrancar os drenos do sítio, o que seria complicado e incluiria uma viagem de ida e volta ao bloco operatório. Bem, única opção. Falei alto: “Senhor A. Sente-se!” e ele sentou-se como um boneco. Chamei e vieram os enfermeiros, que entretanto tinham ouvido, e o colocaram na sua respectiva caminha, com grades para cima. No dia seguinte e nos seguintes, fartou-se de rir e contava á sua esposa o que se tinha passado. E eu envergonhada por ter praticamente berrado com um senhor com idade para ser quase meu avô!

Pois o meu duche de Dia de Reis foi muito doloroso. O caminho de cerca de três metros pareceu-me uma caminhada de cerca de meia hora. A auxiliar muito divertida que me ajudou teve uma pachorra imensa. A ideia principal não era tomar duche, era levantar-me e testar o meu equilíbrio. Mas cada vez que pousava um pé no chão via estrelas e galáxias inteiras. Quase todo o trabalho do duche ficou para a auxiliar (exímia condutora de cadeiras de rodas, devo acrescentar), pois o que ensaboei e esfreguei foi pouco, visto que não conseguia esticar-me ou encolher-me, ou dobrar-me, ou esticar os braços. Irra, que tijolo eu era. A partir desse dia, foi-se repetindo o ritual, e fui sendo capaz de fazer sempre um pouco mais, progressivamente. Lá tive coragem de ver o caminho-de-ferro que formavam os agrafos no meu flanco esquerdo. Vendo hoje, dois anos depois, o aspecto da sutura, nunca pensei que o corpo humano fosse capaz de tal recuperação. Pena que eu tenha engordado, porque a sutura já esteve bonitinha, no sítio, parecia só um fiozinho que passava por ali. Agora, com a gordura, nota-se uma dobra, tenho de me esforçar mais para voltar aos quilinhos que tinha, mas penso que isto não depende só de mim.

Voltando atrás. Lá passou o domingo, e chegou segunda-feira, dia 8. Comecei a cinesioterapia. Isto obrigava-nos, a mim e aos meus “colegas” de cirurgia, a caminhar por duas enfermarias, descer um piso, atravessar outras duas enfermarias e chegar ao ginásio.

Aí tínhamos cerca de quarenta minutos de exercícios com os braços, para movimentar e expandir a caixa torácica. Fazíamos também exercícios de extensão com bastão e roldanas.

Exercitávamos o diafragma com sacos de areia, cada vez mais pesados (dos 500gr aos 2kgs). Ainda hoje os faço, de tempos a tempos. Aprendi que a maior parte das pessoas respira com a parte superior dos pulmões, e seria melhor utilizar também a parte inferior, e tratar do diafragma. Há contudo um problema: esta coisa de usar o diafragma não liga muito bem com cinturas fininhas e umbigo á mostra, hi hi.

Bem, o senhor A. Sonâmbulo teve alta na quarta-feira dia 10. Nunca quis fazer cinesioterapia. Disse que não ia durar muito tempo, e não estava para fazer sacrifícios enquanto cá andasse. Ele sabia que não tinha sido possível retirar todo o tumor dele, que estava no mediastino.

Soube, mais tarde, que continuou a fumar, a ir passear para o centro comercial lá perto de sua casa, e ainda fez quimioterapia. O cancro dele acabou por metastizar para o cérebro e faleceu pouco mais de um ano depois da operação.

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Por hoje é tudo

O pai Bártolo

3 comentários:

Filomena disse...

Pai Bártolo,

Tenho lido todos os resumos e fico um bocadito triste e amarfanhada com todo o sofrimento porque a Susana teve de passar.
Não deviamos sofrer; quando o nosso prazo de validade terminasse( fosse lá quando fosse) podiamos explodir tipo fogo de artifício e começar a brilhar no céu.

Um beijinho

Anónimo disse...

Filomena:
Sabe bem melhor que qualquer outro o que é sofrer, mas nada podemos fazer para além de tentar minimizar esse sofrimento, muitas vezes, sem o conseguir.
Pois, essa explosão seria engraçada, mas ainda não há um botãozinho que nos permita fazer isso.
Obrigado por continuar a acompanhar, mas olhe que, se calhar vai piorar...
Beijinhos.

O pai Bártolo

BRANCAMAR disse...

E aqui estou, a acompanhar a par e passo tudo o que a Susana queria dizer...lembro-me de um dia depois de publicar aquilo a que chamava "histórias intratáveis", disse que tivesse paciência mas não ia haver mais, mas afinal tinha outras, estas.

LEmbro-me de um dia ou outro me deixar vencer pelo cansaço e depois vinha como agora ler duas de uma vez e divertia-me com as coisas que ela escrevia nessa histórias e ela gostava tanto que as lesse e eu gostava tanto de as ler...
Obrigada mais uma vez por nos trazer aqui a presença da Susana.

Beiinhos para si Pai Bártolo e para a sua esposa.

Branca