segunda-feira, 3 de maio de 2010

OXIGÉNIO

2ª FEIRA, 3 DE Maio de 2010

Está um vento muito forte e frio lá fora, por isso estou aqui a escrever, como tinha prometido, sobre o que se passou com o OXIGÉNIO.

Aí vai:

Conforme a Susana já o descreveu, numa manhã que já não sei precisar, sentiu que não estava a respirar bem. Acabou por se deixar convencer a ligar par o seu médico assistente do IPO. O veredicto foi rápido: “vem para cá que eu espero por ti”. Era uma sexta-feira em que não dava consultas. Nessa altura já a Susana não andava. Era preciso descê-la e subi-la do 1º andar, a sua residência oficial e que fora a nossa até do dia do diagnóstico, Outubro de 2006: “A Susana tem um cancro maligno no pulmão, vamos ver se é possível operá-la”. Como ía dizendo, era preciso descê-la daquele 1º andar e transportá-la para o IPO. Sucedessem-se os contactos com os transportadores, em ambulância, sem que alguém estivesse disponível. Ligou-se para o 112, explicou-se a situação. Chegou uma equipa. Estabilizaram-na, pois a sua oxigenação estava muito em baixo. O pulmão que restava não estava a funcionar bem. Desceram-na, instalaram-na na ambulância e nós, pais, arrancamos, à pressa, para o IPO para arranjar uma botija de oxigénio. A meio caminho recebemos um telefonema da Susana: “tens que voltar para traz, pois os paramédicos não têm autorização para me levar ao IPO, por que não tem urgências”. Voltamos. Meteram-na no nosso carro, estabilizaram-na e porque sabia o que é a falta de ar, fui na “brasa” para o IPO. Aí chegado subi os quatro andares a pé, por que os elevadores estavam ocupados e demoravam, à procura da tal botija, acabando por encontrar uma no Hospital de Dia, onde felizmente, neste caso, para mim já me conheciam. Uma botija daquelas pesa certa de quinze quilos. Elevadores ocupados e o tempo a passar. Desci a pé com a botija. Entretanto encontro o seu médico, “Dr. Rezingas”, como a Susana lhe chamava, com uma cadeira de rodas: “onde está a Susanita”, pergunta. Descemos os dois e ele próprio a retira do automóvel. Aplicado de imediato o oxigénio, seguiu-se consulta. Daí em diante ficou com oxigénio permanente, a dois litros. Depois de emitida a respectiva receita, tratou-se com uma das firmas do sector, instalar, em casa o respectivo equipamento: um aparelho que produz oxigénio, uma botija enorme para prevenir faltas de electricidade e uma botija mas pequenina para deslocações.
Tudo correu normalmente bem até que uma das vezes foi preciso substituir a tal “pequenina” das deslocações: levaram uma que devia pesar cerca dos 20 quilos. Agora imaginem a dificuldade que é para transportar uma doente com uma botija destas numa cadeira de rodas… Aquele Sr. Doutor, indignado: “isto não pode ser, vou receitar Oxigénio Liquido”. Para quem não sabe o oxigénio líquido é carregado, em casa, a partir de um contentor grande, num outro mais pequeno que pesa cerca de um quilo e que se transporta ao colo ou pendurado em qualquer sítio.
Mas o pior estava para vir: “leva esta receita ao Centro de Saúde” para eles tratarem de requisitar o oxigénio.
Claro que o pai Bártolo ainda nesse dia foi ao C. Saúde de São Martinho do Bispo. Apresentado o problema ninguém sabia como se processava. Apareceu um médico diferente que disse que tinha que se transcrever para o modelo verde com o número qualquer coisa. Assim foi feito nas calmas. Resta esclarecer que aquele Centro de Saúde, não tem autonomia administrativa nem financeira, ao que me vim a aperceber. Depende do Agrupamento do Bairro Nortão de Matos. A tal receita no impresso verde foi rejeitada e passados mais de vinte dias ninguém dizia nada. Entretanto já o pai Bártolo tinha mandado instalar em casa o referido oxigénio líquido. Alguém havia de pagar, nem que fosse eu. Como ninguém dizia o que se passava dirigi-me à ARS Centro à procura de respostas. Já não existe Gabinete do Utente para estes casos, mas uma senhora simpática que já trabalhara no dito Centro de Saúde, apercebeu-se do problema e acabou a ligar para a Sr.ª Directora do Agrupamento. Eu tinha antes perguntado se poderia falar com ela: “não, não recebe ninguém, é intratável”. Na minha ex-profissão nunca tive medo destas pessoas. Sempre enfrentei as situações e resolvia-as. No dia seguinte, já perto das 17H00, por que nada me era dito, liguei para o Nortão de Matos. Imediatamente a Sr.ª Secretária, muito simpática, me transferiu para a Sra. Directora que simpaticamente diz: “já sei do problema. Está muito longe?, pode vir cá agora e trazer uma cópia de receita”. Claro que podia. Tinha ido à farmácia a cerca de 500 metros de casa. Demorei cerca de dez minutos. Recebeu-me imediatamente. Viu a receita e disse que ia ligar ao médico de família da Susana para a transcrever para um impresso publicado numa Circular de 2006 da DGSaúde e que depois lha levasse lá para despachar. Claro que já era tarde. No dia seguinte de manhã, munido de cópias daqueles impressos e da receita, fui ao C.S.S. Martinho. Informei a Sr.ª Administrativa do que se passara e que pelo meio-dia ia levantar a receita. Assim fiz. Como já esperava nada tinha sido feito por que o Sr. Dr. não tinha recebido qualquer telefonema, embora soubesse o que se passava… Nesse dia, a meio da tarde, um funcionário daquele Centro, que nos conhece, ligou-me a dizer que tinha lá uma receita. Imediatamente fui lá. Tive que conferir tudo, já que havia vinhetas trocadas e falta de assinaturas. Fui de imediato ao Agrupamento onde a Senhora Doutora “intratável” interrompeu uma reunião e em menos de dois minutos autorizou o pagamento.
Infelizmente a Susana usou aquele oxigénio apenas duas vezes.
Quis relatar tudo isto, em pormenor, por que sei que muitas pessoas, a precisar, que não podem ou que não têm quem o faça, por se amedrontam perante a prepotência, ignorância e incompetência de alguns destes actuais funcionários.
Tenho vergonha desta gente. Já o fui e quando não sabia alguma coisa ía à procura de respostas e as pessoas eram imediatamente informadas. Assim não.
Obrigado por me aturarem. O pai Bártolo

2 comentários:

Brancamar disse...

Não tenho palavras pai Bártolo, li tudo comovidíssima e quero deixar-lhe um enorme abraço, pela coragem enorme com que tem feito e enfrentado todo este processo, pela coragem enorme de vir aqui falar para os amigos da sua filha, da nossa Susaninha.
Tenho tantas saudades dela e tenho aquela cartinha que fez o favor de pôr no correio guardada numa caixinha de tesouros, é um dos maiores tesouros que tenho e que me permitiu falar ainda uma última vez com ela, para lhe mostrar a minha alegria por a receber.
Um dia destes falarei convosco, quando tudo estiver mais calmo.
Deixo-lhes um beijo, para si, para a esposa e a maior coragem, a maior força que lhes fôr possível. A Susana é uma estrela que temos connosco, que teremos sempre connosco.
Obrigada por vir até aqui.
Branca (para a Susana Tia Branca)

sideny disse...

Sr.Bártolo

Nâo tenho palavras para comentar este texto que o sr escreveu sobre os restantes dias da Susana.

Infelismente é este o nosso país
que no campo da saude esta um caos
e uma vergonha.

Deixo-lhe um beijinho para o si e muito obrigado por continuar a escrever sobre a Susana.
Ela estara sempre connosco, e no nosso pensamento.

beijo