quarta-feira, 18 de março de 2009

Texto Intratável de Hoje - "Quarta Carta ao Anjo"

Quarta Carta ao Anjo


Os olhares desses teus olhos, ai, ai. Há tempos vieram perguntar-me porque é que tu eras tão tímido a olhar para mim. Pronto, mais uma cena para eu desmontar, desmentir, aldrabar, ignorar e tudo mais. Claro que eu disse que não era nada, era impressão. Já me perguntaram se havia alguma coisa entre nós, eu respondi pronta e calmamente que não. Perguntei porque achava isso. “É que parece que há um clima...” Eu não gosto deste tipo de boquinhas, não gostaria mesmo que houvesse algo, e muito menos porque não há. Se te chega alguma destas aos ouvidos tu ainda pensas que fui eu que as inventei. E chove para cima de mim outra vez.
Eu realmente sabia que não namoravas. Eu não fui perguntar à M. por duvidar de ti. Eu precisava de ver a cara dela. Nós as duas éramos mais ou menos amigas. Quando apareceste, a coisa mudou de figura. Também foi na altura da doença da mãe dela. Mas há coincidências que, quando são a mais, cheiram mal às mulheres. Ela até pode achar que és muito querido, saber que não queres nada com ela, mas no fundo ela até gostava. Era isso que eu desconfiava. Não é crime, eu também gosto. Achas que ela só te contou por achar piada à minha estupidez? Que foi só para te informar que eu andava a cuscar? Pode ter sido. Mas também lhe deu jeito para ver a tua reacção ou resposta. Tu és muito observador, excepto quando andas irritado. E tens andado um bocado. Continua a ter cuidado com os amigos que se riem muito para ti. Tu sabes ver muito bem, mas não te distraias. Eu, que não tenho nada a ver com a tua vida, tenho observado muita gente que precisa sempre de ti para alguma coisa. E tu, tens pedido ajuda a alguém? Quem te tem oferecido ajuda?
Ando com um pressentimento estranho. Chama-me bruxa se quiseres. Francamente, se me considerasses mesmo amiga, não ficavas tão irritado com a pergunta que eu fiz. Os amigos acabam por meter o nariz na vida uns dos outros. Grave seria eu perguntar à moça quanto mede o teu... ACHAS?! ACHAS QUE EU SOU ASSIM TÃO ESTÚPIDA? Eu não sou. Também não fui nada simpática na resposta que te dei quando gritaste comigo, mas foi pelo choque da tua reacção. Achei enorme, exagerada. É que eu também me irrito, sabes? Fui atropelada por um comboio. Fiquei sem saber o que fazer. Afinal não podia confiar na M. (mais um balde de água fria). Isto tudo porque tu andavas a escapar muito. Quando te perguntei, porque estava sinceramente preocupada, do que te tinha dito o médico, e do resto quando fiz muitas perguntas, acabaste por me enxotar. Passou-se alguma coisa parva contigo outra vez, que eu não sei, mas que te enervou valentemente. Eu acertei a fazer merda no dia errado, não foi? Outras razões? Bem... Todos ganhamos mal. Escusas de ser orgulhoso, porque podes magoar-te. Não é por não seres o Bill Gates que vais perder os teus amigos. Não precisas ser forte todos os dias, não és o super-homem, esse gajo é um desenho animado. Tu és de carne e osso (e de que carne), como todos os outros. Tens sonhos e projectos que te distinguem dos demais, tens o teu doce coração, mas não te esqueças que “é fácil ser difícil”. É natural que alguém goste de ti e queira estar próximo de ti. Isso implica brincarem contigo, contarem-te os seus problemas e alegrias, esperar que tu faças o mesmo. Os amigos são os amigos, os outros são conhecidos. Então parece que era só nesta última prateleira que eu tinha lugar. Não fiz por mal. Tentei defender-me de mais bocas, tirar dúvidas e calar um dos megafones da escola que é amigo da M. Acredito que não entendas esta lógica. Não admito é que não acredites em mim.
Uma vez disseste-me que eras muito influenciável. Recorda-te disso.
Por vezes estamos tão ocupados com um pormenor, que nos esquecemos de tudo o resto, que é bem melhor e nos cerca, esperando que nós reparemos. Por vezes, quando acordamos é tarde.
Tenho de aguentar o pouco que tenho, pois vou ter de sobreviver de algum modo, sozinha, quando me faltarem os meus pais. Tenho medo desses dias e não gosto dos que vivo. Estou em constante repressão, vivendo dia após dia. Não faço planos para nada. Não sei se vai haver guerra ou não. Não sei se vale a pena criar condições para ter os meus sonhados três filhotes. Nem sequer tenho a certeza se os posso ter. Mas neste momento, nem sequer quero saber. Sinto-me inútil muitas vezes ao acordar e ao deitar. Nos intervalos tento ser feliz. Se não o sei fazer sozinha, peço ajuda. Nem sempre a tenho. Sabes porquê? Porque tive demasiadas neuras antes. Os amigos fartaram-se de mim. Dizes tu, “Arranjam-se outros.” Será mesmo? Uma vez tive uma depressão, mas não gosto do nome. Demorei muito tempo a voltar a confiar. Vê lá só em quem fui confiar. Em ti. Tens sempre provado silenciosamente que acabas por ter razão. Experimenta a confiar um pouco em mim, vê com atenção o que vou fazendo, empurrando, provocando e compara. Os métodos são diferentes, a ideia é semelhante, mas o raio do choque, YES é muito igual. O problema é que tenho ar de sonsa, forte, organizada. Não sou nada disso. Por favor, quem precisa de mimo sou eu.
Agora, perante tudo o que se passou, gostar de ti é algo que tenho de esconder, até porque me deixas atarantada e só faço asneiras. A sério que acho que entretanto também já achaste que reagiste demais. Toma em consideração o meu nível de inteligência. Eu não penso como tu. E só penso às vezes. Normalmente sinto. É por isso que não somos clones. Não estou nem a brincar, nem a armar-me em maternalista e muito menos em vítima. Tu intimidas-me. Odeio deixar coisas meias ditas. Estou a escrever porque não me queres ouvir. Assim podes sempre ter a satisfação de rasgar e deitar fora. Entretanto, já devo ter feito alguma daquelas minhas trombas-tipo-cerca-electrificada. Mas tenho medo de falar para ti, a sério. Parece um enorme incómodo. Adorava acordar agora e descobrir que estava a ter um pesadelo.
Isto mexeu muito comigo. E as coisas vão ser diferentes a partir de hoje. Só me meto em coisas complicadas, não é?
E também li uma coisa bonita:
“Muita gente tem medo da felicidade. Para essas pessoas, esta palavra significa mudar uma série de hábitos ¾ e perder a sua própria identidade. Muitas vezes julgamo-nos indignos das coisas boas que acontecem connosco. Não aceitamos, porque aceitá-las dá-nos a sensação de que ficamos a dever alguma coisa a Deus.
Pensamos: “É melhor não provar o cálice da alegria porque, quando este nos faltar, iremos sofrer muito.” Por medo de diminuir, deixamos de crescer. Por medo de chorar, deixamos de rir.”
Há uma data que me diz muito. Sobre ela nunca escreverei. Tenho uma recordação tua, que ficou esquecida num cantinho. É ridícula para ti, não compromete porque não identifica nada nem ninguém, só me recorda um momento. Anda sempre comigo. É uma memória só minha, só minha.
Deve ser a única que vai ficar de ti. Lamento imenso.

P.S.: Juro que estou a seguir a medicação à risca. Estou bastante mais calma. Eu andava em “slide” porque não conseguia controlar algumas coisas e porque me armei em forte. Como não sou, dei o braço a torcer e agora não mordo em ninguém. Não digas nada, porque ainda me despedem.
Beijos da Joana


*****

5 comentários:

Brancamar disse...

Minha querida,

Tenho-me atrasado nas leituras, um dia sem net, saídas à noite, compras no fim de semana é no que dá. Mas, nada de gozar comigo, porque as compras é naquela base de comprar o essencial para não andar rota e as saídas como hoje foi por causa de um trabalhito importante da filha.
Não fosses tu pensar que sou uma consumista, uma previligiada da crise. Não, infelizmente não sou banqueira, não recebo subsídios ou reforços do Estado para manter a fortuna, tenho é que pagar dos meus míseros tostões para isso tudo, como muitos de nós, Hiiii! Que raiva!
E volto amanhã para ler as tuas preciosidades e saber se há novidades, das boas! Aliás para isso tenho passado sempre, mesmo sem escrever.
Isto de tomar um simples descafeinado à noite, já não é para a minha idade, tira-me o sono, mas vou...
Beijinhos
Tia Branca

Brancamar disse...

Olá Susana,

Vim por aqui com tempo ler as histórias de vida da Joana, miúda que estou a compreender, mas que tem uma personalidade que a faz sofrer muito. Como diz o texto há quem tenha medo de ser feliz, com medo de sofrer depois, mas a felicidade é um somatório de muitas coisas ao longo da vida e quem não arrisca ser feliz, depois vai recordar o quê? Mesmo que custe perder momentos felizes, são eles que nos abrandam o coração e nos trazema a sabedoria da tolerância. A vida é mesmo assim, composta de uns momentos bons e outros menos. É preciso aprendermos a afastar pensamentos negativos.
Bem, depois de comentar a personagem, quero é saber da escritora. Como anda ela?
Se um dia passar por Coimbra gostava de estar contigo, mas possívelmente não queres, vais-me dizer que não estás preparada para isso. Se assim é eu compreendo, já aprendi um pouco a conhecer-te. Este Verão tenho planos para estar com algumas pessoas, não sei se vou conseguir cumpri-los, não sei se vai dar, mas sonho com isso, depois logo se vê.
Já andei aqui ao lado à procura, não tens um e-mail, nada que eu consiga descobrir como te contactar, ou serei eu que estou a ver mal?
De qualquer forma, se quiseres tu fazê-lo, tens o meu, no meu perfil.
Beijinhos.
Tia Branca

P.S. Vou ter uma semana de férias antes de Páscoa, ainda não sei o que me vai dar na telha, depende da disposição e do suporte económico.:))

Brancamar disse...

Olá Xanfrada(eheheh)

Só para te dizer boa noite e que fiquei tão contente, tu sabes porquê. Agoa estou a cair, já não raciocino, mas amanhã retribuo.
Beijinho grande
Branca

jorge henriques disse...

OLÁ , ESTE SILENCIO É SÓ PERGUIÇA ?
Passei para desejar uma boa semana e dizer que já li e estou á espera de mais...
abraçâo e tudo bom
jorge

Xanfrada disse...

Olá Olá Jorge, então a ler as maluqueiras da Joana, hein? Isto é mesmo "soap opera", triste, para fazer chorar as pessoas, eheheh.
A preguiça e o sol têm-me afastado do pc. Vou tentar meter ordem nos trabalhos. Prometo.
Boas leituras e tudo a correr bem, espero.
Abração.