sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Texto Intratável de Hoje - "Sexto Fantasma"


“Talvez nos reencontremos na passagem de século...”
O Manuel tinha razão em muita coisa, afinal. Mas também se enganara, tal como Clara.
“Manuel, é a imagem que conta, não é o recheio. Com o recheio não te safas. Se acreditas nisso, nunca vais ser feliz. Não te esqueças que a democracia é a ditadura da maioria sobre a minoria.”
“De qualquer modo, à minha estranha maneira, amo-te. Se bem que não percebo porquê. Mal nos conhecemos. Provavelmente amor é isso mesmo. É aproveitar os bocadinhos que nos agradam, de várias pessoas. Depois trata-se de tentar aguentar a vida com os bocados ou com o todo. Quem espera o todo, normalmente desespera. Nos dias que correm não podemos ser exigentes. Só podemos viver o momento.”

Manuel caíra-lhe no regaço quando ela não esperava. Como sempre andava ocupada a tentar tratar da vida dos seus amigos, daqueles por quem nutria algo mais que um grande carinho. Ia desabafando com Manuel, ele ia ouvindo. Ela nunca sabia o que ele pensava realmente. É tramado. Fazer isso aos outros tem uma certa piada, agora, quando no-lo fazem a nós, nem por isso. Não resolveu a crise que pretendia ditatorialmente resolver à sua maneira. Alguém o fez de um modo diametralmente oposto. Chocou-se com isso. Foi apanhada de surpresa e ficou bastante magoada. Fora vencida pelas ideias dos outros.
Antes e depois dessa situação, Manuel sentiu que Clara buscava algo. Deu-lhe a entender que isso era fácil de obter. Mas só isso. Sexo é sexo. Foi óptimo, havia muito tempo que Clara não se desligava assim da sua máscara. Manuel e Clara conheciam-se pouco. Manuel espantou-se “pela entrega tão grande...”, Clara com tanto carinho junto na mesma pessoa, aliada a um lindo corpo e um olhos que a assustavam de tão azuis. Pareciam espelhos. O que escondiam? O que mostravam? Ela perguntou-lhe como se chegava à alma dele, e a resposta que obteve foi “É segredo”.
Nada esperavam do outro, pelo menos de acordo com as palavras que lhes saíam da boca para fora. “Não estou em época de compromissos, preciso de não me envolver”, disse ele. “Está bem, percebi. Se assim queres...” e Clara pensou numa época em que fizera o mesmo. Durante dois anos não quis compromissos. A dada altura pareceu-lhe possível aguentar tal forma de vida. Mais tarde pareceu-lhe que existia algo mais do que encontros de “amigos”. Depois recuou, pois pensando bem, havia razões de mais para que nada resultasse. Até que um belo dia o seu não-comprometido-namorado-faz-de-conta se lembrou do seu aniversário. Clara detestou a ideia. Preferia que ele lhe tivesse falado, e não lhe oferecesse coisas.
Ainda hoje não sabe porquê, mas desconfia que foi por se habituar a não esperar nada. Ela só dava, e não tinha de volta. Receava que Manuel se magoasse como, ou mais do que ela se tinha magoado. Manuel dera-lhe muito carinho. Ela levava sempre para casa os abraços, beijos e carícias que não tinha tido coragem de lhe dar e fazer. Tinha de parar naquele ponto a partir do qual receava assustá-lo. Mas arrependia-se de não caminhar pela casa fora, de não ir à cozinha buscar um copo de água para Manuel, de não rebolar e ficar, cheia de expectativa, tal como ele dizia, em cima da cama, com uma toalha a tapá-la, esperando que ele voltasse e retomasse as suas massagens. As massagens: para ela eram cada vez mais uma desculpa para fazerem sexo, ou amor? Não conseguia saber o que significavam para ele. Recordava o que ele dissera a esse respeito. “Toda a gente faz isto. Sentimo-nos bem. Porque não aproveitar o que Deus nos deu?” Estaria ele a ser mesmo sincero? Clara nem se preocupava muito que Manuel lhe mentisse, mas e se ele mentisse a si mesmo? Preferia sempre acabar por pensar que ele sabia da sua vida. Só gostava que um dia ele entendesse que ela sempre o respeitara, apesar de ele a ter acusado uma vez de viver em cima de um pedestal, como defesa contra todos os outros. Ela nunca esquecera essas palavras. Além de ter caído do pedestal abaixo, ela baixara todas as suas defesas. Claro que ele reparara nisso. Fazia-se desentendido. Temia que ele lhe fugisse, mesmo como amigo, que era somente ao que tudo se resumia. Ele dissera-lhe, quando se encontraram a primeira vez com a ideia das massagens, a brincar ou a sério (?) para que ela não se apaixonasse por ele. Ela dissera-lhe: “Não te preocupes, se isso acontecer nunca te vou dizer”. E tencionava cumprir.

É claro que o que se passa aqui é que o Manuel, como é saudável e de ideias arejadas, e tinha a namorada longe da vista, resolveu dois problemas de uma só vez. Tratou das teias de aranha da Clara e do seu instinto masculino de dar uma queca de vez em quando. “O que foi Manuel, choquei-te? Sabes que tirando todos os floreados e palavras bonitas, este mundo é muito feio? Eu nem sequer estou a azedar, nem a cobrar, sei que nem sequer tenho direito a ter ciúmes. Mas se porventura os tivesse, isso alterava alguma coisa para ti? Entrei no jogo, sei quais eram as regras, e até informação contrária continuo! Aquilo que eu sinto, ou não, é algo que troco por aquilo que sentes e pensas. Se o disseres algum dia, eu digo a minha parte. Não te refugies atrás de uns olhos gelados, quando eles podem ser dois lagos de paraíso. Quem te diz agora sou eu: não azedes, vais ver se arranjas muitos amigos assim.
Claro que também nunca se pode falar a sério comigo (foste tu que o disseste também), e... o meu carro continua a ser um dos meus melhores amigos (são as vantagens te lhe trancar a direcção!).”
***

1 comentário:

Brancamar disse...

Olá Susanita (só para te contrariar),

Se esta história do Manuel e da Clara fazem parte daqueles "derrames cerebrais antigos" de que falavas nos comentarios anteriores acho bem que continues a tê-los e a desenvolvê-los e a prometer que os trazes por aqui.
O que admiro em ti é o perceberes que a vida tem muito mais para além da doença...No entanto não deixes de dar notícias tuas, O.K.?
Vai-nos trazendo à mistura as tuas criações, as tuas reflexões e o teu espírito lúcido e crítico.
Eu espero sempre por aqui e só não escrevi logo que colocaste o post porque não tenho por costume fazer comentários,sem ler profundamente os textos e reflecti-los.
Poderia dizer muito sobre a história que escreveste, mas há histórias que não se comentam, leem-se e sentem-se em silêncio, um silêncio respeitoso de quem percebe as nuances e os desencontros da vida.
Beijinho grande e saúde crescente.
Branca