terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Texto Intratável de Hoje - "Primeira Carta para o Anjo"


Primeira carta para o Anjo

7 de Março de 2003

Olá Anjo.
Obrigada por te dares ao trabalho de começar a ler isto. Não pretende ser uma lavagem cerebral, até porque isso não resulta contigo. Não é uma fuga, mas sim uma tentativa de te dizer o que nunca tive oportunidade de dizer. Sempre gostei mais de te ouvir contar as tuas histórias e graças. As minhas não teriam metade do interesse. Gosto mais de ouvir. Gosto e preciso de aprender.
O sistema de aprendizagem passou a ser “cabeçada e lição”. O problema deste sistema é que pelo caminho se vai dando cabeçadas em pessoas que não têm culpa de nada.
Em miúda, eu brincava com os rapazes vizinhos, já que não havia miúdas do mesmo tamanho. Bicicletas, bonecos e bola. Eu era gorducha e travava nas descidas. Escondiam-se todos de mim e quando eu finalmente chegava pregavam-me valentes sustos.
Pareço um animal de circo treinado para cumprir horários, ser eficiente, ter uma função. Não percebo nada de conviver, rir, divertir-me sem relógio, aceitar elogios e muito menos acreditar neles. Podias dizer agora que tenho idade para ter juízo e já devia ter alterado isto.
A minha primeira paixão assolapada foi aos catorze anos. Os meus pais descobriram pela directora de turma e lá veio sermão e castigo. Naquele tempo era giro esperar pelo carteiro. Não havia telemóveis. Fartei-me dos castigos e dediquei-me aos estudos e ao snooker, até aos dezassete anos.
Dezassete anos. Apaixonei-me estupidamente por um rapaz que era muito divertido e que tinha várias namoradas ao mesmo tempo. Claro que demorei um bocado a descobrir, porque ele não era de cá. E eu acreditava nas pessoas. Bela desilusão. Demorei dois anos a voltar a responder a perguntas masculinas. Estava a ficar ligeiramente alérgica a mentiras dos senhores.
Posso dizer que nenhum dos ex-namorados ficou traumatizado. Estão todos muito bem. Acho que tenho um efeito estranho nas pessoas, dou-lhes cabo da cabeça, curo-lhes os medos e eles (poucos) vão à vida deles. Eu fico a remoer a história, tentando perceber o que aprendi, e a tentar levantar-me do último espalho.
Isto até pode parecer um filme, mas não é. Não consigo ordenar os pormenores que se foram avolumando no espaço do meu cérebro. Não te consigo explicar como fiquei assim. Não gosto de tudo. Deves pensar que falo de mais, que não devia estar a dizer-te estas coisas. Estou a dizer-te a ti. Fazem parte de mim e modificaram-me sempre um pouco quando aconteceram. Quanto a isso não posso fazer nada. Há uma flor que só nasce na época do Natal, durante o resto do ano, resume-se a umas folhitas verdes mal amanhadas. Mas a flor é muito linda. Mas isso não tem nada a ver comigo, eu sou mesmo um cacto.

Despedi-me de ti com dois beijos. Foi por um milésimo de segundo que não te beijei mesmo, pois estavas mesmo a pedi-las. Achei que era melhor pensar duas vezes, antes que fugisses a sete pés por me achares atrevida, sei lá. Penso que tu gostas de caçar e não de ser caçado, passando a expressão.

As mensagens que me enviavas eram lindas. Primeiro achei que eras atrevido. A primeira foi aquela “As abelhas fazem-no, os passarinhos também,... Porque é que nós não...? Esquece, nenhum de nós sabe voar”. Era tão bom acordar de manhã, ligar o telemóvel e ver que te tinhas lembrado de mim de madrugada. Era como um segredo meu. Pode ser patetice, mas era acordar, virar-me para o lado e ver um lindo ecrã azul com palavras tuas. Eram beijinhos molhados (piadas de filmes). E era tão mau ter um telemóvel que ia abaixo e quase nunca tinha rede (agora este funciona muito bem mas não tem grande utilidade!). Até me ocorreu que era simpático de mais para ser verdade, ou que estavas interessado num tipo diferente de amizade, que eventualmente me achasses...gira, mas também pensei que te tivesses enganado no número. Nunca me vais dizer, pois não? Tenho tantas saudades. Não te respondia porque estava a dormir a essas horas. Depois habituei-me acordar de hora a hora para ver as novidades. Foi quando deixaste de mandar beijinhos. Se vivesse sozinha telefonava-te mesmo, só para te ouvir. Ou nem seria preciso telefone nenhum. Lembras-te de uma noite de sábado para domingo, que estivemos nessa brincadeira até às cinco? Essa foi há pouco tempo. Bem, agora tomo comprimidos para dormir outra vez, depois de desligar o telemóvel e deixá-lo longe da cama. Dói muito saber que não há um cantinho para mim nos teus dias e noites. Mas também não sei se só um cantinho me chegava. Habituaste-me mal.

Na Noite de São João é que foi lindo. Às 02h16m aproximadamente, acordei com som de mensagem. Era tua e dizia “Vá lá, não te faças de difícil. O que eu quero mesmo é fazer amor contigo”; eu ri-me, não de gozo, mas mesmo de... alegria, até ter pensado que podias ter trocado o número. Respondi-te algo do género “abençoadas sardinhas!”. Na tarde seguinte, liguei-te e não quiseste ir beber um café. Encontrei-te mais tarde e deu-me vontade de te bater porque afinal só tinhas dito aquilo por estares bêbedo! Palavras tuas. Isto é, no teu perfeito juízo nunca dirias tal coisa, nunca te passaria pela cabeça que eu pudesse gostar da ideia. Pior, quase parecia que a ideia era horrorosa para ti. Foi isso que me irritou, não foi o paleio da mensagem. Devias ter aceite o café. Porque depois fiquei tão sozinha que me lembrei de beber um whisky depois de jantar, adormeci e acordei quase de manhã ainda no sofá!

Sabes que há sempre pessoas que nos rodeiam que se podem tornar perigosas, mesmo que não queiram? Sabes o que eu ouvia várias vezes por semana? Que a M. não tinha dormido em casa outra vez, e que tu a tinhas ido levar de madrugada, ou lhe davas boleia de manhã. E que tenho eu a ver com isso? Ouvi isto dezenas de vezes. Tanto que começou a fazer-me urticária e pior que isso, o que eu não estava à espera: ciúmes. E ciúmes de quê? Com que direito? Ao mesmo tempo lá andavas tu a convidar-me para sair, mas naquela fase em que acontecia sempre um incidente qualquer, lembras-te? Eu até já aceitava os convites e tudo, tu é que acabavas por desaparecer. Uma vez acabei a jantar sozinha, porque já não tive cara para voltar cedo para casa.
Comecei a achar que te escapavas com bastante agilidade. Depois pensava cá para mim: se ele é sempre directo, só está a agir assim porque agora tem mais que fazer; ou está a ser gentil porque trabalhamos no mesmo sítio; eu atrapalho-o? O.K. ele nem te vê!

Cheguei à conclusão que não era paixoneta minha simples por causa dos ciuminhos horrorosos que senti, da necessidade de estar contigo, pela conversa, pela partilha dos sonhos e projectos, quando não dormia a magicar soluções para te defender dos ataques parvos que te fizeram (como se precisasses!), quando chorei e chorei porque estavas triste e em baixo e me mandaste uma mensagem com muito pouca auto estima que me assustou. Não é por estar na moda, mas acho que podes estar a caminho de um esgotamento. O que não é de admirar. Estás mais magro, sorris menos, evitas cada vez mais pessoas; pelo que me disseste, largaste um pouco o futebol, que adoras; os amigos que te cercam se calhar não são os que querias mesmo; aturas melgas como eu. Não sei. Mas isso não é cansaço, é também tristeza. As tuas úlceras deram alarme, e o teu coração também. Não é por precisares de uma ajudinha que deixas de ser quem és, depois digo-te porquê. O que eu queria era só distrair-te um pouco. Tentar ao menos chatear-te com os meus disparates, para rires ou teres uma óptima ideia para fazer algo urgentemente só para te livrares de mim. Claro que o que eu preferia era que me deixasses dar-te um grande abraço e miminhos. Tu precisas. Se eu preciso, e até ando a treinar para ser iceberg, então tu com esse coração de mel deves estar com saldo de abraços negativo. Pronto, não precisas dizer que sim. Eu sei na mesma. As mulheres são umas chatas mesmo, nisso não sou única. Posso perder-me a conduzir, mas lembro-me dos detalhes mais estranhos, que, todos juntos, me permitem chegar a lindas conclusões. Só não me peças para explicar porque não tenho jeito e ninguém fica esclarecido. Isto é genético.

Vieram as férias. Perdi-te o rasto e também não insisti porque achei que terias companhias mais interessantes. Mas houve uma semana terrível. Tu não tinhas dito nada durante uns tempos. De repente, na mesma semana, eu comecei a receber mensagens de ti e do ex. Ele é um parvo, quero dizer, aquele fulano abanou-me o sistema, arrancou-me as pilhas e levou colada a minha motivação, insultou-me, namora há três anos com a mesma Célia e quando está com a neura lembra-se de mim. Um dia destes deixo de ser educada e mando-o onde ele merece. Sabes que ele acha que não tem mal nenhum mandar-me mensagens assinadas “teu”? Tu admitias isto? Eu não sou pneu suplente. Preferia não ser bruta, mas isto preocupa-me. Acho que vou ter de lhe dizer umas quantas. O que tem piada é ouvir as nossas conversas. Parece que nos conhecemos há séculos, mas isso é só porque ele lê mais que eu e tem um grande paleio. E chega. Era aqui que eu precisava de ti, nas férias e agora. Em ti, confio o suficiente para te pedir ajuda, mas agora não posso. Tu não ma dás.
Como podes reparar, tu tens uma certa propensão para sucederem-te coisas estranhas, mas eu tenho um bocadito de azar.

Durante o verão, parecias areia. Houve uma tarde de domingo em que me perguntaste se te pagava o jantar. Lembras-te? Eu só fui sincera, porque tinha desmaiado e não sabia se iria repetir. Não apareceste porque foram a tua casa uns amigos. Fiquei a saber porque te liguei, foste tão sincero que disseste que te tinhas esquecido de mim. Adorei. Fiquei triste e não jantei.
O caraças é que depois encontramo-nos em Setembro e tal, e a sensação continuava na mesma. E eu a dizer a mim mesma: “Sua estúpida, ela acha-te uma cota, conhece mulheres a potes, é simpático, tem tudo no sítio. ESQUEEEEEECE!”. Pois, é fácil de dizer. Quando estás bem disposto és uma companhia impecável. E assim fui andando. Esperando e ansiando que não acabasse o teu contrato. Eu que “acredito na cegonha” como tu dizes, continuo à espera de um pouco de justiça. Depois vês. Não és só tu que dizes “Vais ver que eu tinha razão!”. Aprendi recentemente a confiar mais nos meus instintos. Pronto, está bem, houve um que falhou redondamente, mas destinava-se a chegar a outro. Não posso acertar sempre.

Fui a uma festa que afinal foi um nojo. Eu tive o tal pressentimento de ser melhor não ir. Fui. Estavas lá, azedo, eu não queria a arrumação de mesas que tinham feito, queria ficar perto de ti e dos divertidos. Tu estavas tão mau, que me enxotaste quando tentei falar contigo. Disseste-me secamente “Não quero falar disso”, pedi desculpa e quando tive de sair um bocado vi quem não me apetecia ver. Lá estava a tua querida amiga das boleias. Parecia que batia sempre tudo certo. Foi aí que desapareci da festa. Tu não sabias o que se passava comigo, nem te interessava. Os meus problemas devem parecer-te minúsculos, não é? São proporcionais ao meu tamanho. A minha amiga Cristina diz-me que eu tenho coração de pedra porque aguento tudo, e que dou cabo de mim por gostar de mais. Rico paradoxo, não é? Eu não devia ter-te dito que gostava tanto de ti. Sabes que as paixões mudam, mas o gostar cresce e começa a ocupar cada vez mais espaço, abafa-nos e leva-nos ao ponto de deixarmos de querer saber de nós, de só querer o bem do outro, de desistir se for necessário, de calar os sonhos, de desligar os sentidos, de sobreviver somente, porque mais nada tem sentido. Se não te tivesse dito, terias notado? Ou terias continuado inocentemente a achar que eu era uma amiga simpática, e só? Quanto a promessas, nem a mim as faço. Nunca quis que me prometesses nada. Nem sequer é por isso que te estou a escrever.

Acho que não te obriguei a nada. Tu até estavas em tua casa. Ainda foram uns quilómetros. Vieste de livre vontade, é a ideia que tenho. Foi bom, muito bom. Pensei que seria a primeira e última vez, tinha sonhado tanto, que não fiz nada do que sonhei. O cenário que até era meu, não teve encanto nenhum. E o meu grande final: “Há água quente?”, “Claro, eu...eu vou ligar já.”
Os teus olhos fugiam tanto que pensei que não era a mim que querias ali. Mas há situações em que fazemos caras estranhas, portanto...esquece. Foi bom, gostava de repetir para partilhar contigo coisas boas e é melhor não falar mais do assunto. Tu não consegues pensar nisso comigo nos próximos 300 anos.

Eu tinha ficado admirada com todas as perguntas que me fizeste acerca da minha ideia de sexo, lembras-te? Pensei que para ti, sexo sem compromisso englobasse também saber muito pouco da outra pessoa, para esquecer melhor. Nunca ninguém me tinha perguntado o que perguntaste.
Eu queria saber tantas coisas de ti. Fiquei com a impressão que esperavas de mim algo que não te dei. Eu acho que deve ser sem compromisso porque deve ser só partilha de carinho, e de prazer. Não ando por aí a saltitar de cama em cama. Vivo bem sem sexo. Não me refiro ao tal ano e meio que te disse, mas sim aos seis anos e tal anteriores.

Admirado? Nem todos os namorados que tive chegaram aí. Contigo foi a primeira vez que não tive um aperto no estômago. Só me senti insegura porque a casa não estava como eu gostava.
Era como jogar à roleta russa.
Eu só tinha uma bala.
Sexo não é para curar discussões, não é obrigação de casal, não é para encher intervalos de jogos de futebol. É para ser lindo e só.

Beijos,
Joana
*****

3 comentários:

Brancamar disse...

Lindíssimo texto, "Xanfrada"!
As tuas histórias são como tu e cada vez gosto mais. São incomentáveis, porque tal como na anterior, sentem-se quando se leem, mas não se comentam, são plenas de vida interior.
Confia nos teus instintos, tal como a Joana da tua história aprendeu últimamente, o coração sempre nos diz o que está certo, pessoas que se guiam excessivamente pela razão não são de confiar.
Gostei de tudo, especialmente do parágrafo final.

Passando da literatura para o plano pessoal, como tens andado?
Estou a escrever pensando se estás em tratamento, se estás por aí para me ler?
Espero que tudo esteja a correr o melhor possível e que continues a trazer-nos estas histórias de vida.
Beijinho grande.
Tua amiga Branca

Brancamar disse...

Voltei.
Não penses que desisti de ser tua tia.
Tua tia amiga Branca.

Xanfrada disse...

Ai ai, não posso contar o que vai acontecer á Joana. Já está, eu não mudo nada na história, mas...não, não digo.
Esta é uma das razões porque o blogue é assim e o meu nickname aqui é Xanfrada. Tem lógica, não tem? Há sempre uma pequena xanfrada dentro de nós! Tive a sorte de conhecer muitas histórias e muitas pessoas diferentes, e deu nisto, hi hi.
Bem, amanhã não prometo andar por aqui. Semana de castigo começa na segunda, não sei se terei o ecocardiograma pelo meio, e se tudo correr bem, ala para casa no sábado. Oxalá.
Se calhar ainda deixo mais uma historinha.
Muitos beijinhos á grande leitora deste não-best seller, Tia Branca. E também a quem passa, lê e não deixa impressões virtuais, sim, eu sei. Jiiiiinhus.